Cidades

Entrevista

‘Mídia faz o papel que a oposição
não consegue’, diz João Paulo Cunha

Eduardo Metroviche

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Para deputado, o prefeito de Osasco será um nome forte nas eleições de 2010
Leandro Conceição

Na segunda-feira, 17, o deputado federal João Paulo Cunha (PT-SP) recebeu a reportagem do Visão Oeste em seu escritório, em Osasco. Na entrevista, falou dos processos que tem contra si no Supremo Tribunal Federal e no Ministério Público Federal.
O deputado também avaliou a atual conjuntura política, disse ser “meio inevitável que uma candidatura própria [do PT] ganhe força” para as eleições presidenciais em 2010 e explicou por que é favorável à CPMF.

Visão Oeste: Qual sua avaliação do 3º Congresso do PT?
João Paulo Cunha:
O 3º Congresso foi convocado num momento de crise do partido. Tinha uma expectativa de tentar renovar um pouco a base teórica que já vinha carregando há alguns anos e cumpriu parte disso. Discutiu um pouco o socialismo, a estrutura partidária e o Brasil que queremos. Eu acho que correspondeu um pouco às nossas expectativas, não exatamente aquilo que nós imaginávamos, porque também a crise já se tinha superado em grande medida. Então, o Congresso baixou um pouco a temperatura e perdeu um pouco no conteúdo.

O senhor é a favor de o PT lançar candidato próprio ou apoiar alguém da base aliada na eleição presidencial de 2010?
Essa é uma discussão que deve ser tratada com cuidado, porque nós queremos, como preliminar, a manutenção dessa base de apoio ao governo, essa aliança que tem sustentado o governo do presidente Lula, PCdoB, PSB, PDT, PMDB, PP, PR. Agora, é muito difícil o PT não ter candidato. É meio inevitável que uma candidatura própria ganhe força, densidade eleitoral.

O deputado federal Ciro Gomes (PSB-CE) já sinalizou que não deve abrir mão da candidatura. Isso pode gerar um racha na base?
O Ciro Gomes é um bom nome, um nome considerável e de um partido que historicamente é nosso aliado. Não acho prudente colocar nada de forma peremptória, definitiva. Nem o PT deve afirmar que quer um candidato dele e ponto, e ninguém deve falar que é candidato e ponto. A gente tem que discutir.

Como deputado federal mais votado do partido, pretende lançar candidatura?
Minha primeira prioridade hoje é me defender. A segunda é ajudar o companheiro Emidio [de Souza, prefeito de Osasco], que faz uma boa gestão. Não há nenhuma expectativa eleitoral maior. A gente tem que prestar atenção porque haverá muitas surpresas em 2010. Certamente Emidio vai chegar numa situação muito confortável. Tenho fé que vai se reeleger [em 2008], fará um bom governo e vamos ter um quadro renovado para 2010, quer seja para senador ou governador.

Então Emidio pode ser candidato ao governo ou ao senado em 2010?
O Emidio é uma estrela em ascensão no PT. É um companheiro agora com uma experiência política em administração. É um nome que certamente o PT considerará não somente para governador, mas para os desafios que são demandados para o futuro ao partido.

Como o senhor avalia a acusação de seu envolvimento no chamado “mensalão”?
Tenho a ação do Supremo Tribunal Federal, no processo denominado “mensalão”, e o processo no Ministério Público Federal, que é uma denúncia de improbidade administrativa. Estou seguro de que o tempo mostrará quem de fato tem responsabilidade e culpa ou não. Eu e somente eu sei o que fiz e o que deixei de fazer. Tenho absoluta consciência de que não fiz nada errado, não me apropriei de nada público. A crise que nós vivemos é fruto de nosso sistema eleitoral, da forma de financiar campanha e é exatamente por isso que estou envolvido. Espero que a Justiça me absolva e que na época da minha absolvição a imprensa dê o mesmo destaque que ela deu neste momento [da acusação].

O senhor disse à revista Fórum que o sistema eleitoral é vulnerável e é necessário criar mecanismos para impedir a prática de Caixa 2. Quais seriam esses mecanismos?
Não há nenhum modelo que seja absolutamente imune. Mas, na minha opinião, o melhor é o sistema público de financiamento de campanha. E que haja um teto nacional de gasto e uma prestação de contas periódica. O financiamento público de campanha reduziria substancialmente o Caixa 2 e daria muito mais liberdade e independência para os eleitos.

Por que é favorável à prorrogação da CPMF?
A reclamação [sobre a CPMF] do ponto de vista de parte da população é em relação ao tamanho da carga tributária, que de fato é grande e nós temos que nos preocupar em fazer um programa para ela ir paulatinamente reduzindo. A CPMF não é um imposto ruim. É um imposto que não dá para sonegar e incide fundamentalmente sobre aqueles que têm um pouco mais de recursos. Veja bem, uma pessoa que movimenta mensalmente R$ 2 mil no banco, paga R$ 7,00 de CPMF. Então, não é um imposto muito forte e tem tido uma importância muito grande aos programas do governo.

Atualmente, como avalia a postura da grande imprensa?
A imprensa tem adotado uma posição quase partidária. Se dependesse da grande imprensa, o PT teria acabado e o Lula teria sido derrotado. Aquela faixa na comemoração da vitória do Lula na Paulista era e é uma frase emblemática: “o povo derrotou a mídia”. É verdade, a mídia continua fazendo o papel que a oposição não consegue fazer. Coloca o assunto e depois transforma o assunto como se fosse da opinião publica. Ela fala o assunto, repercute e vai retroalimentando. Com um agravante: parte da mídia hoje tem alimentado um sentimento preconceituoso, racista, contra o PT, contra o Lula.

Qual pode ser o papel da TV pública nesse cenário?
Pode apresentar uma grade de programação, uma linha editorial que não seja estatal, que não seja chapa-branca, não pode ser isso, mas que seja no sentido de informar a população de forma mais cristalina, límpida, que nem sempre a gente tem em outros canais que, via de regra, têm seus interesses. A TV pública, insisto nisso, não pode ser estatal, oficial, órgão do governo.

Como está o processo para a construção de Universidade Federal em Osasco?
Está em estágio bastante avançado. Semana passada tive uma informação do ministro da Defesa de que aquela operação que passa uma parte do terreno do Exército (localizado no Alto do Farol, zona Sul de Osasco) para a Educação está em andamento ágil.

E as tão faladas reformas trabalhista, previdenciária, tributária, sindical e política na Câmara?
A minha impressão é de que não tende a sair, pelo menos neste ano. O que está um pouquinho mais avançado é a reforma sindical, com o reconhecimento das centrais sindicais, que distribui um pouco os recursos dando capacidade e condições para estruturar as centrais nos estados, no plano nacional e os próprios sindicatos. Mas também acho difícil ser votada ainda este ano.

Como petista, qual sua avaliação sobre as reformas trabalhista e previdenciária?
Em momentos de recuperação econômica, como esse que vivemos, não é prudente uma reforma trabalhista, porque eu tenho muito receio desta sanha empresarial e deste mantra de que há um peso excessivo dos encargos sociais e que os trabalhadores têm direitos demais. Dentro do PT e na minha bancada vou trabalhar para não mexer em nada disso. Não estamos num momento de retirar direitos dos trabalhadores. Pelo contrário, há ainda a necessidade de se buscar em alguns campos para se garantir mais segurança para o trabalhador.

O que acha do movimento “Cansei”?
A população mais pobre morre nas filas dos hospitais, postos de saúde e ninguém fala que está cansado. Ninguém fala que está cansado de as famílias da periferia terem seus filhos assassinados. A concentração de renda no país é brutal e ninguém fala que está cansado. Com a concentração de terras ninguém está cansado. Esse movimento não é neutro, é partidário, contra o presidente Lula, contra o PT.

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