Opinião – O racismo e a cumplicidade de Pelé

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Altamiro Borges
Jornalista. Publicado originalmente no Blog do Miro

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O craque Pelé, endeusado mundialmente por seus belíssimos lances no futebol, também é famoso pelas besteiras que fala. Nesta quarta-feira (10), ele deu mais um chute fora. Ele criticou abertamente o goleiro Aranha, do Santos, que protestou contra as cenas repugnantes de racismo durante uma partida em Porto Alegre. “Se eu fosse parar o jogo cada vez que me chamassem de macaco ou crioulo, todo jogo teria de parar. O torcedor, dentro da animosidade, grita… Acho que temos que coibir o racismo, mas não é em lugar público que vai coibir”, afirmou. Sua atitude complacente e passiva diante da crescente onda de preconceito e ódio racial no país gerou imediata reação nas redes sociais.

Muitos internautas lembraram que Pelé sempre se omitiu diante do racismo. Com todo o seu prestígio, o campeão de três Copas do Mundo e de vários torneios internacionais e campeonatos nacionais também nunca disse uma palavra contra a ditadura militar, que torturou e matou tantos brasileiros. Sempre foi omisso. Em artigo no site da CartaCapital, o jornalista Matheus Pichonelli observa que Pelé nunca ergueu sua voz contra o preconceito ou qualquer outra forma de injustiça. Ele lembra das piadas racistas e machistas que circularam durante muito tempo sobre a sua relação amorosa com Xuxa, a famosa apresentadora da TV Globo. Neste sentido, o seu silêncio cúmplice agora não causa surpresa.

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“Para o ídolo do Santos e da seleção brasileira, ser chamado de ‘macaco’ não era razão suficiente para parar um jogo de futebol, que dirá parar o país. Para ele, o mundo é assim porque é assim: ele é cruel, mas basta fingir que a crueldade não existe para que o racismo morra por inanição. A estratégia deve dar resultado. Tem sido assim desde 13 de maio de 1888. Funciona tanto que, cem anos depois da Abolição, o maior jogador de todos os tempos era alvo de piada, contada em público e na frente das crianças, por namorar uma jovem branca, chamada descaradamente de ‘comida de preto rico’. A piada era tudo o que tínhamos de pior em duas frases. Conseguia ser racista, machista e sexista ao mesmo tempo”.

E o jornalista conclui: “O racismo dói, disse o goleiro Aranha repetidas vezes ao fim da partida contra o Grêmio. Dói. É possível que doa nele tanto quanto dói em Pelé, mas só um decidiu pronunciar a própria dor, que é a dor de um país inteiro. O outro pede para que o jogo simplesmente continue. O silêncio é a argamassa da barreira que vitima a todos há mais de um século. Ela só será estatelada quando houver no mundo mais Aranha do que Pelé”. Assino embaixo!

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