Brasil

46 anos

Eles fazem a história de Osasco

Leandro Conceição

Osasco completou 46 anos na última terça-feira, 19. Apesar de jovem, o município já tem muita história para contar. A reportagem do Visão Oeste conversou com pessoas que fizeram e fazem a história da quinta maior cidade do estado.

“Vítimas, sangue, gritos de socorro”

Eduardo Metroviche

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O bombeiro foi um dos que socorreram as vítimas da explosão no Osasco Plaza Shopping
Afonso Paulo da Costa era primeiro sargento do Corpo de Bombeiros de Osasco na época em que trabalhou numa das maiores tragédias da história da cidade e do país: a explosão do Osasco Plaza Shopping, causada por um vazamento de gás no subsolo do edifício, que matou 42 pessoas e feriu 472, no dia 11 de junho de 1996.
Hoje sub-tenente, Costa relembra o cenário que viu ao chegar ao local: “A explosão levantou o que deveria ser o piso até a altura do teto. Algumas vítimas foram arremessadas, outras esmagadas pelos destroços. Difícil de explicar. Lembro de ter visto muitas vítimas, muito sangue, ouvido muitos gritos de socorro”, conta.
Costa nasceu em Juíz de Fora (MG), em 1959. Migrou com a família para Osasco com 10 anos, pois os pais “vieram em busca de melhores oportunidades”, diz. Morando na cidade, entrou para o Corpo de Bombeiros em 1981, casou-se em 1996 e cria os dois filhos, de oito e cinco anos. “Gosto muito daqui. É uma cidade que está crescendo e vai continuar.”

“O suor que sai da minha pele”

Eduardo Metroviche

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José Geraldo Setter lutou pela difícil emancipação
Fim da década de 1940. Osasco é um bairro da capital, os serviços públicos são precários. Falta água, esgoto, transporte coletivo. Nesse cenário, ganha força o movimento pela emancipação. “Osasco despontava uma grande concentração de indústrias, gerava muita receita, mas a prefeitura da capital não investia aqui”, conta o presidente da Ordem dos Emancipadores, José Geraldo Setter.
Em 1952 foi lançada, pela Sociedade Amigos do Bairro Osasco (Sabo), a pedra fundamental do movimento emancipacionista. Na época, Setter, nascido no centro de Osasco em 1935, era um jovem estudante e aderiu à causa.
Em 1953, um plebiscito popular rejeitou a emancipação. Setter diz que houve fraude. A luta continuou e, em 1958, novo plebiscito disse sim a emancipar a cidade. Mas o então prefeito de São Paulo, Ademar de Barros, entrou na Justiça contra o pleito, e a briga durou três anos. “Era comício todo dia, o povo se manifestou muito”, lembra.
A emancipação veio em 1962, quando houve a primeira eleição municipal. Hirant Sanazar foi eleito o primeiro prefeito e tomou posse no dia 19 de fevereiro. “Daí em diante, a cidade cresceu bastante, só que de forma desordenada. Agora, rumo ao cinqüentenário, com o projeto ‘Osasco 50 anos’, estão querendo mudar isso.”
Administrador de empresas, Setter é casado e pai de três filhos, e diz que não teria coragem de sair da cidade. “É um município humanitário, fraterno, de oportunidades para todos”, avalia. “Osasco é o suor que sai da minha pele.”

Da greve ao exílio

Eduardo Metroviche

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“Vivíamos arrocho salarial desde 1964”, lembra Ibrahim
Na manhã de 16 de julho de 1968, os cerca de três mil operários da Cobrasma, a maior metalúrgica de Osasco, entraram em greve. Em seguida, os operários de outras fábricas da cidade, como Braseixos, Barreto Keller e Lanoflex também pararam as máquinas. Lutavam por melhores salários e liberdade sindical em plena ditadura militar. A greve de 68 foi um marco na história do movimento sindical brasileiro.
Um de seus líderes era José Ibrahim, um jovem de 21 anos nascido em Presidente Altino, que trabalhava como inspetor de qualidade na Cobrasma e havia sido eleito presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região no ano anterior. “Vivíamos arrocho salarial desde 1964 e não tínhamos liberdade sindical.”
As mobilizações duraram cinco dias, mesmo com a repressão. “A greve foi vitoriosa, não só do ponto de vista dos trabalhadores como politicamente contra a ditadura”, avalia.
Após a greve, dezenas de trabalhadores foram presos, torturados e banidos do país. Ibrahim foi demitido sem direitos, entrou na clandestinidade e foi para a luta armada, na Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Preso pouco depois, foi um dos 15 presos políticos trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick, em setembro de 1969.
Após dez anos exilado na América Latina e na Bélgica, voltou ao Brasil em 1979, poucos meses antes da anistia. “Minha chegada foi linda. Tinha milhares de pessoas me esperando ao lado da casa da minha mãe, em Presidente Altino. No dia seguinte fui visitar o Sindicato.”
Nos anos 80, Ibrahim foi um dos fundadores do PT, mas rompeu com o partido e se filiou ao PV. Atualmente ele mora na Capital, trabalha como consultor de sindicatos e comanda a ONG “Sociedade Cidadã”. Aos 61 anos, ele mantém o idealismo. “Sou socialista, continuo acreditando no socialismo como a forma superior de desenvolvimento humano.”

Coragem para lutar e vencer

Eduardo Metroviche

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“A cidade era vista como a cidade do crime, um lixão”
Não raro, aempregada doméstica desempregada Ana Lúcia Bento Figueiredo, 38, vai à prefeitura reclamar dos problemas enfrentados por ela e seus vizinhos, as cerca de 150 famílias que moram na Área Livre AC, no Jardim Bussocaba, zona Sul. O esgoto, que vive entupido, e o lixo na área são suas principais queixas.
Para ela, a mobilização dos cidadãos é fundamental. “Incentivo as pessoas daqui a terem coragem para lutar e vencer”, explica.
Mas Ana recusa o papel de líder comunitária. “Há a idéia de formar uma associação de moradores, mas querem que eu seja presidente e eu não posso”, afirma. “Não tenho tempo. Tenho que terminar os estudos para vencer na vida”. Ela faz cursos, como de cabeleireira, para arrumar emprego.
Nascida em Osasco, casada e mãe de três filhos, Ana diz ter “muito orgulho” do município. “A cidade antigamente era vista como a cidade do crime, um lixão. Hoje está bonita, bem cuidada, melhorando cada vez mais.”
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