50 anos do Golpe: Joaquim Miranda Sobrinho e a luta contra a repressão nas fábricas

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O sindicalista Joaquim Miranda Sobrinho militou em grupos de esquerda durante o período da ditadura militar e sentiu na pele a repressão. Sua organização de comissões de trabalhadores nas fábricas por onde trabalhou em Osasco e na região do ABC o levaram três vezes à prisão no Doi-Codi, ou sequestro como prefere chamar. “Prisão pressupõe uma ordem judicial, e naquela época não tinha”, lembra. Nos 50 anos do Golpe de 1964, Miranda fala sobre sua militância política e conta episódios como a greve da Cobrasma, em Osasco, em 1968.

Fernando Augusto

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O sindicalista Joaquim Miranda Sobrinho militou em grupos de esquerda durante o período da ditadura militar e sentiu na pele a repressão. Sua organização de comissões de trabalhadores nas fábricas por onde trabalhou em Osasco e na região do ABC o levaram três vezes à prisão no Doi-Codi, ou sequestro como prefere chamar. “Prisão pressupõe uma ordem judicial, e naquela época não tinha”, lembra. Nos 50 anos do Golpe de 1964, Miranda fala sobre sua militância política e conta episódios como a greve da Cobrasma, em Osasco, em 1968.
O sindicalista Joaquim Miranda Sobrinho militou em grupos de esquerda durante o período da ditadura militar e sentiu na pele a repressão. Sua organização de comissões de trabalhadores nas fábricas por onde trabalhou em Osasco e na região do ABC o levaram três vezes à prisão no Doi-Codi, ou sequestro como prefere chamar. “Prisão pressupõe uma ordem judicial, e naquela época não tinha”, lembra. Nos 50 anos do Golpe de 1964, Miranda fala sobre sua militância política e conta episódios como a greve da Cobrasma, em Osasco, em 1968.

 

Visão Oeste: Após 50 anos como analisa o contexto em que aconteceu o Golpe de 64? Já tinha atuação política naquela época?
Joaquim Miranda Sobrinho: Vim do interior de São Paulo e a partir de 1958 vim morar em Osasco. Portanto, em 1964 morava aqui. Não tinha participação política ainda, só a partir de 1965, quando entrei na diretoria do Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco.

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Foi aí que comecei uma participação em alguma coisa coletiva, um sentimento de busca de justiça social e trabalhista. Antes de falar do Golpe é preciso dizer que a ditadura trouxe prejuízo em todos os setores da vida do povo brasileiro, porque toda ditadura traz prejuízo.

Acredito que até a corrupção que existe em grande escala no país hoje tem origem na ditadura. Além do cerceamento da liberdade, concentração de renda, crescimento da dívida externa.

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A origem da ditadura foi a Guerra Fria, onde o mundo ficou dividido em dois blocos: capitalista e socialista. Como esses dois mundos não são conciliáveis, tanto um lado como outro procuraram se fortalecer. Desde 1950 os países aqui da América do Sul tinham movimentos sociais em crescimento e isso assustava o capitalismo norte-americano.

Tanto que houveram ditaduras sangrentas no Chile, Uruguai, Argentina, Brasil, com os mesmos esquemas de repressão.

Muito se discute que seria implantada a ditadura comunista no país e isso é utilizado como justificativa para o Golpe. No entanto, pelo o que se conhece o presidente deposto, João Goulart, não pretendia desrespeitar a Constituição de 1946. A ideia era fazer as reformas sociais.
Essa ideia de que seria implantada uma república sindicalista ou comunista aqui é uma baboseira. Não tinha clima. O que você falou do Jango é justamente fazer a reforma agrária e outras que até hoje são bandeiras defendidas no Brasil.

E essas reformas assustavam os capitalistas. Até hoje, a  reforma agrária é ideia que os grandes latifundiários não querem nem ouvir falar.

Entrou no sindicato em 1965. Desde aquele momento já percebia repressão no movimento sindical ou foi a partir do AI-5, em 1968?

O próprio fato do Sindicato dos Metalúrgicos ter sofrido intervenção em 1964 era suficiente para eu entender que a gente estava a mercê de forças repressivas. O fato de ter um coronel como Ministro do Trabalho, que era o Jarbas Passarinho, também.

Sabíamos que era um regime autoritário. Fiquei de 1965 a 1967 no sindicato, quando concorreram três chapas, fiquei na chapa verde que ganhou a eleição.

“Doi-Codi pode ser chamado de filial do inferno”

Então participou da conhecida greve da Cobrasma em 1968…
Em 16 de julho de 68 iniciou-se a greve aqui em Osasco e aí as coisas mudaram totalmente. A greve foi uma manifestação muito forte no sentido de desafio à ditadura.

Teve vários desdobramentos, muita gente presa e o sindicato voltou a sofrer intervenção. A diretoria foi cassada e muitos presos e processados pela auditoria de guerra.

O senhor foi preso na greve?
Sim, no dia 18 de julho. O sindicato já estava ocupado pelas forças da repressão e tínhamos combinado de se encontrar com companheiros da [metalúrgica] Braseixos na igreja de Santo Antônio, que hoje é a Igreja Matriz, para poder manter a greve.

Quando cheguei lá de manhã a polícia estava e fomos presos. De lá trouxeram até a delegacia de Osasco e depois para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social), em São Paulo. Fiquei três dias preso, outros ficaram mais.

Quando decidiu atuar contra o regime não apenas no meio sindical?
Depois de 68 acho que minha percepção das coisas melhorou, através de conversas com pessoas que tinham uma visão mais ampla que a minha. Aí depois de 68 não era só a questão social, mas também a necessidade de um outro regime que não fosse aquele militar e de repressão.

Como foi sua formação política e qual era?
Tinha muito contato com diversos partidos de esquerda. Conheci bastante gente da Ação Popular (AP), que tinha uma linha maoísta, gente do antigo Partido Comunista, do Partido Operário Comunista, da chamada igreja progressista.

Li alguns livros que me influenciaram bastante, como A Mãe, do Máximo Gorki, ABC do Comunismo (Bukharin, Nikolai Ivanovitch), e essa série de coisas foi me levando a ter maior esclarecimento do cenário do Brasil e do mundo, até que um dia acordei.

Quando e como foi preso pela segunda vez?
Como em Osasco sabia que estava numa espécie de lista negra, fui procurar emprego no ABC e entrei na Mercedes Benz em São Bernardo do Campo como afiador de ferramenta. Em 1972, um dia às quatro e meia da tarde chega alguém e me diz para ir na seção pessoal para assinar um documento. Fiquei desconfiado.

Chegando lá estava o Doi-Codi e me levaram. Essa prisão se deu devido a uma pessoa da chamada Ala Vermelha, que era um grupo armado, e eu tinha tido um encontro com essa pessoa em frente à Mercedez. Provavelmente através de fotos me identificaram. Fiquei 12 dias preso dessa vez.

Dessa vez teve algum tipo de tortura?
Sim, a primeira tortura pra valer foi dessa vez. É bom dizer que [a palavra] prisão não cabe muito bem, foi um sequestro, porque prisão pressupõe uma ordem judicial, e naquela época não tinha. Pegavam e te levavam não se sabia pra onde e não avisavam a família. No caso a minha mulher sabia que uma hora outra podia acontecer.

Fleury me disse: ‘se você aparecer aqui novamente a gente acaba com você’

Nessa época integrava qual grupo?
Formalmente não integrava. Eu tinha muitos contatos em vários grupos. Me integrava mais na Ação Católica Operária, que era um movimento mundial. Participei ativamente.

Mas quando fui processado pela segunda vez pela auditoria de guerra meu nome constava como participante do Partido Operário Comunista (POC).

Como vê os que passaram para a luta armada, principalmente os que realizaram ações como o assassinato do empresário Henning Albert Boilensen, presidente da Ultragaz, por exemplo?
Havia diversas correntes na esquerda, entre elas a que defendia e praticava a luta armada. Tanto os que lutavam pela luta não armada como armada colaboraram para o fim da ditadura.

Não tenho crítica nenhuma a fazer a quem lutou com arma na mão. Pelo contrário, uma pessoa que põe a vida em jogo por uma causa que não é pessoal, mas coletiva, por um ideal, só merece todo o meu respeito e admiração.

Sua militância era nas fábricas?
Sim, por meio de jornais e na formação das comissões de fábrica, clandestinas porque não se podia falar em comissão de fábrica aberta. No ABC, aos domingos, nos reuníamos para tentar articular os trabalhadores.

Nas duas vezes em que foi preso, o que procuravam saber nos interrogatórios?
Na primeira vez, as perguntas eram feitas por uma pessoa que hoje é delegado em Presidente Prudente, e logo que entrei na sala de interrogatório um rapaz de cabelo comprido disse em voz alta: “já ouviu falar do JC? JC é Jesus Cristo, eu sou Jesus Cristo”.

A pergunta era onde estava o Gustavo, que era um rapaz do POC, que é o Nilmário Miranda, que foi até ministro [dos Direitos Humanos no governo Lula]. Ele era dirigente do POC.

Na segunda vez que fui preso era interrogado a qualquer hora do dia ou da noite e à medida que as pessoas iam “caindo” iam aparecendo fatos novos e iam me buscar novamente para perguntar sobre outros militantes. No meu caso, o centro de todas as perguntas era o Gustavo, pois eu o conhecia.

Quais métodos de tortura foram utilizados?
Primeiro é a tortura que vem da cabeça da gente. Mas o mais comum era o pau de arara com choque elétrico e junto com isso a expectativa de a qualquer hora do dia ou da noite ser chamado.

Conhece de nome algum dos interrogadores e torturadores?
Não conheço ninguém de nome. A não ser da terceira vez que fui preso, quando estive frente a frente com o delegado [Sérgio Paranhos] Fleury, mas ele não me interrogou ou torturou.

Só me disse: “se você aparecer aqui novamente a gente acaba com você”. Na terceira vez foram mais 10 dias no Doi-Codi.

Já voltou no local onde funcionava o Doi-Codi?
Não tenho vontade. Aquele espaço deviam colocar dinamite, explodir, deixar os escombros e escrever em frente: “este lugar pode ser chamado de filial do inferno”. Aquele é um lugar maldito. Se plantar um pé de alface ali talvez não nasça.

Como viu as manifestações contra e a favor dos 50 anos do Golpe?
Para mim causa até surpresa a quantidade de manifestações contra a ditadura nesses últimos dias. Foi uma surpresa agradável. Esses que se manifestam a favor, como [o deputado federal Jair] Bolsonaro, ou ele é um doente mental, como parece ser, ou é um oportunista que quer voto da direita para se reeleger. Defender uma ditadura como foi não tem sentido nenhum.

O que pensa de uma possível revisão da Lei da Anistia?
Sou a favor, mas os efeitos práticos iam ser quase nulos, porque os torturadores estão com mais de 70 anos, com pé na cova. Ia ser mais simbólico. Agora, a tortura é um ato de gente anormal. Se eu fosse o governo, tivesse poder, não praticaria contra meus adversários a tortura.

As medidas como sindicâncias nos quartéis e a Comissão da Verdade trazem sentimento de justiça aos ex-militantes?
Entendo que a Comissão da Verdade, o principal papel dela é montar o desenho mais completo da ditadura, reescrever a história, levantar dados, circunstâncias de mortes de alguns que ainda não se sabe onde está o corpo. A Comissão tem sido valiosa nesse sentido.

 “Tortura é um ato de gente anormal”

Nesse contexto do que ainda deve ser apurado fala-se muito sobre a participação de grandes empresas durante o regime.
Na Volkswagen, por exemplo, tinha um pequeno quartel lá dentro com oficiais reformados e totalmente integrados ao governo militar. Integrado no sentido de reprimir desde pequenas manifestações de reivindicação dentro da empresa. A Mercedez Benz tinha um major como chefe de segurança. Essas empresas forneciam o nome de pessoas consideradas perigosas ao regime. Empresas como a White Martins, Ultragaz também ajudaram no Golpe e depois na repressão.

 

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