Artigo: O risco da falta de água em São Paulo

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Por Luis Nassif - jornalista. Publicado originalmente no Jornal GGN
Por Luis Nassif – jornalista. Publicado originalmente no Jornal GGN

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O governo de São Paulo e a Sabesp colocaram a Grande São Paulo no maior risco de abastecimento de água da história. Se até outubro não voltarem as chuvas, o quadro será trágico. Esta foi a conclusão de três especialistas reunidos no programa Brasilianas.org – Paulo Canedo, da COPPE (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Mateus Simonato e Benedito Braga, Presidente do Conselho Mundial de Água, a mais importante instituições mundial do setor.

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Foram dois os erros centrais.

O primeiro, o não cumprimento dos termos acordados para a renovação da concessão do sistema Cantareira.

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Em 2004 a ANA (Agência Nacional de Águas) e o DAE (Departamento de Águas e Energia do estado de São Paulo) renovaram para a Sabesp a outorga do sistema Cantareira. Pela outorga, a Sabesp deveria providenciar em até trinta meses “estudos e projetos que viabilizem a redução de sua dependência do Sistema Cantareira”. E em doze meses, um plano de contingência para situações de emergência.

Nada foi feito. O prazo da concessão vence agora.

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Para o ex-presidente da ANA, Jerson Kelman, não havia como prever a maior seca da história. Mas já havia sinais claros no final do ano passado.

E aí se entra no segundo erro: nada foi feito quando eram evidentes os sinais de crise à vista.

De maio a dezembro de 2013 o nível do reservatório despencou 25 pontos percentuais – de 64% para 30% – ou seja, perdeu 53% de sua capacidade.

Foi uma queda alarmante. Mas não se adotou nenhuma medida preventiva e em abril, com o nível da represa abaixo de 20%, o governador Geraldo Alckmin ainda insistia em não adotar providências.

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Agora, a Sabesp vai retirar o chamado volume morto da represa. Trata-se de água mais profunda, que fica no fundo dos reservatórios.

Ontem, anunciou-se que o Ministério Público Estadual estaria questionando o uso da água, por vislumbrar riscos para a saúde.

Para Kelman – e para os participantes do programa – não há risco algum. Existe essa possibilidade em algumas hidrelétricas, não na Cantareira.

Apesar do nome aterrorizador – “volume morto” – trata-se apenas de água que corre abaixo da última janela de captação dos tubos que carreiam a água para o sistema Sabesp. Mas é água corrente normal.

Se a Justiça demorar a se pronunciar ou se negar o uso da água – na opinião de Kelman – a alternativa única será o racionamento imediato de água.

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Com o uso do volume morto, tem-se água até outubro. Se as chuvas não melhorarem, não haverá como fugir de um racionamento bravo. E as melhores previsões climáticas não avançam além do horizonte de três dias.

Portanto, é contar com São Paulo.

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As soluções definitivas não sairão antes de 2020.

Como toda grande região metropolitana, o quadro em São Paulo não é fácil. Há uma disponibilidade hídrica per capita inferior à do nordeste – devido ao grande adensamento populacional. E há um nível de consumo de primeiro mundo.

Agora, se terá que buscar água cada vez mais longe. Na fronteira oeste – diz Kelman – o rio Piracicaba já forneceu o que podia. Há o Paraíba do Sul, de onde se poderá tirar 5 m3 por segundo.

E resta a alternativa da fronteira sul, com o rio Juquiá. Lá, haverá conflito com a produção de energia. Mas a água sempre tem prioridade.

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