Comissão dá nova luz à história de luta de Osasco

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Vídeo da década de 90 traz depoimento do primeiro prefeito / Foto: Reprodução
Vídeo da década de 90 traz depoimento do primeiro prefeito / Foto: Reprodução

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Sessão da Comissão da Verdade de Osasco realizada na segunda-feira, 6, deve reforçar a história de luta de Osasco contra a ditadura. O objetivo do encontro foi detalhar as circunstâncias em que o primeiro prefeito de Osasco, Hirant Sanazar, foi afastado do cargo logo após o golpe militar de 1964, sendo substituído por Marino Nicoleti.
Com base nas atas das sessões da Câmara Municipal, a Comissão da Verdade havia inserido em seu relatório, divulgado em dezembro, que Hirant foi “cassado sob acusação de corrupção”. No entanto, um vídeo pouco conhecido, entregue à comissão pela família Sanazar e exibido na sessão, mostra que Hirant foi, na verdade, mais uma vítima dos primeiros meses da ditadura militar instaurada em abril de 1964.

Sessão esclarece afastamento de Hirant Sanazar

O vídeo é um longo e incisivo depoimento dado por Hirant Sanazar na década de 1990 (a comissão não precisou o ano) no IEAC 21 (Instituto de Estudos, Ação e Cooperação Século XXI). O vídeo, de cerca de duas horas, foi compilado em 40 minutos. Com documentos, Hirant mostra como foi afastado do cargo com base em um Inquérito Policial Militar (IPM) instituído após uma carta anônima feita pelos próprios militares, que desejavam colocar na prefeitura Marino Nicoleti.
O IPM ficou a cargo do major do 4º RI de Quitaúna, Oyama Olinto de Almeida, que determinou a prisão de vereadores e outras pessoas ligadas à administração Sanazar. “Entre os inúmeros presos, dois sofreram sérias consequências, o vereador Clóvis Carrilho de Freitas, que sofreu 26 pontos cirúrgicos na cabeça, e a professora Helena Pignatari, então secretária de Educação, que sofreu aborto na prisão”, denuncia Hirant no depoimento.

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O prefeito também foi preso, por 19 dias, e submetido a interrogatórios de até 27 horas, como parte de uma tortura psicológica que foi muito usada no período. Com o prefeito preso foi empossado o vice, Marino Pedro Nicoletti. Na época, prefeito e vice não eram eleitos numa chapa única, o que criava a distorção de um vice poder ser adversário político do prefeito, como era o caso.
Em maio de 1964 aconteceu o que parecia impensável. Os vereadores presos foram soltos para irem à Câmara votar pela aprovação da vacância do cargo de prefeito. “Votaram com os fuzis nas costas. Foi assim que a Câmara votou a declaração do cargo vago. Terminada a sessão, os vereadores voltaram a ser presos no mesmo quartel”, explica Hirant Sanazar no vídeo. A partir daí, Marino Nicoleti, a quem Hirant chama de “filhote da revolução”, ficou como interventor de Osasco. “Fui solto e voltei pra minha casa, onde no portão estavam soldados portando metralhadoras”, diz Sanazar.

Nas instâncias superiores, o frágil IPM com acusações contra o prefeito eleito acabou arquivado e, em 1965, já com os vereadores em liberdade, a Câmara votou resolução revogando a decisão anterior e reempossando Hirant Sanazar.
Mas as perseguições continuaram, até que em 1969, quando pesquisas de intenção de voto mostravam que Sanazar seria novamente eleito, ele teve seus direitos políticos cassados por 10 anos pela ditadura. O preferido dos militares, Marino Nicoleti, no entanto, que era o segundo colocado em uma pesquisa do Ibope, acabou derrotado por José Liberatti, do MDB.
Hirant Sanazar morreu em 23 de novembro de 2003.

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A Comissão da Verdade

A Comissão da Verdade de Osasco divulgou um relatório em dezembro após três meses de trabalho. No entanto, o relatório foi parcial e os trabalhos estendidos até setembro.
O sindicalista Jorge Nazareno, um dos coordenadores da comissão, destacou a importância do vídeo com o depoimento de Sanazar e ressaltou que poucos conheciam o material. A vereadora Mazé Favarão (PT) se mostrou surpresa com o material apresentado. “Esse documentário tem que ir para o museu de Osasco”, afirmou.

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