Comissão da Verdade vai correr contra o tempo

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Posse dos membros da Comissão Municipal da Verdade, nesta quinta-feira, 21, na Câmara de Osasco / Jeferson Martinho

Posse dos membros da Comissão Municipal da Verdade, nesta quinta-feira, 21, na Câmara de Osasco / Jeferson Martinho
Posse dos membros da Comissão Municipal da Verdade, nesta quinta-feira, 21, na Câmara de Osasco / Jeferson Martinho

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Fernando Augusto

A Comissão Municipal da Verdade de Osasco empossou seus sete membros nesta quinta-feira, 21. Com prazo de 180 dias, o grupo vai investigar as violações aos direitos humanos cometidas no município durante o período da ditadura militar. O projeto de lei que instituiu a comissão foi aprovado por unanimidade pela Câmara na semana passada.

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O que for apurado pela Comissão da Verdade osasquense será integrado às revelações da Comissão Nacional da Verdade (CNV), que funciona desde 2012. O problema é que a CNV vai terminar em dezembro, por isso os trabalhos precisam ser rápidos em Osasco. Outra dificuldade é que o grupo municipal pode convidar, mas não convocar um depoente, o que pode dificultar o colhimento de depoimentos de membros das Forças Armadas e outras forças da repressão. “Perdemos um pouco de tempo, mas há tempo para esclarecer fatos e muitas pessoas ainda estão vivas”, disse o prefeito Jorge Lapas (PT), ao discursar na Câmara.
A vereadora Mazé Favarão (PT), autora do projeto de lei da comissão, disse que o objetivo, além de elucidar os fatos da época, é “fazer com que os resultados cheguem à juventude”. Para isso, defende que, ao final dos trabalhos, tudo seja compilado em um livro.

Lapas disse que a vinda a Osasco da professora Rosa Maria Cardoso, membro da CNV, em julho, mostrou que era preciso uma comissão municipal. Na ocasião, em evento organizado pelo Sindicato dos Metalúrgicos de Osasco e Região, Rosa Maria lembrou que o município foi de vanguarda na luta contra a repressão, principalmente contra o meio sindical. “Osasco foi realmente um lugar de enfrentamento das políticas da ditadura, sobretudo contra os trabalhadores, que têm que contar essa história melhor”, disse. O atual presidente do Sindicato, Jorge Nazareno, é um dos membros da Comissão Municipal empossados nesta quinta.
Um dos episódios que deve ser detalhado na comissão é a repressão à Greve da Cobrasma, em 1968, primeiro movimento de trabalhadores contra a ditadura. À época o sindicato sofreu intervenção e o então presidente, José Ibrahin, ficou conhecido por liderar o movimento grevista e por ter sido um dos presos políticos trocados pela libertação do embaixador americano Charles Burke Elbrick.

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3-Espinosa-Metro“Alguns torturadores ainda moram na cidade”

O jornalismo e professor universitário de Osasco Antonio Roberto Espinosa foi um dos idealizadores da Comissão da Verdade. Fez parte da luta armada contra a ditadura e foi preso e torturado. Espinosa participou da posse dos membros da comissão nesta quinta-feira e conversou com a reportagem do Visão Oeste.

Como vê a instalação da comissão e o que será mais importante investigar?
É uma comissão que deve contribuir com a CNV, porque Osasco, de certa forma, é uma síntese privilegiada do que acontecia naquele momento. É uma cidade que deu a cara a bater durante a ditadura, promoveu uma das greves mais importantes da história do movimento de trabalhadores, uma cidade de movimentos estudantis que foram às ruas e, por consequência, é uma cidade que apanhou muito. Talvez a cidade que mais apanhou da ditadura, porque lutou contra ela. Aqui também fica a guarnição de Quitaúna, onde a luta armada requisitou armas para a oposição ao regime, mas também na guarnição foram recrutados os piores torturadores da Operação Bandeirante, que, infelizmente, saíram da cidade. Espero que a comissão esclareça como foram as lutas e como o Estado agiu, os locais da cidade em que se torturavam pessoas e quem eram os torturadores.
Acredita que antigos membros da repressão vão vir depor?
Pelo o que foi conversado com a CNV, muitas reuniões serão convocadas em conjunto. A comissão municipal não tem esse poder de polícia; a nacional tem e pode usar esse poder e forçar essas pessoas a depor. Muitos torturadores continuam vivos e alguns ainda moram na cidade.

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