Editorial – Alguma coisa está fora da ordem

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A letra de “Fora de Ordem”, de Caetano Veloso (álbum Circuladô, 1991), identificava um perfil suburbano decadente, controlado pelo narcotráfico, que explorava a inocência de crianças numa realidade muito mais cruel e profunda que a mostrada nos cartões postais. Caetano, que recentemente manifestou apoio ao movimento dos “black blocks” , talvez não imaginasse que sua letra se mantivesse tão atual. A ponto de a situação caótica se ampliar de forma que o aparato policial, criado justamente para proteger o cidadão comum daquele universo em ruínas, se transformasse ele próprio num dos espelhos daquela decadência.

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Os muitos “Amarildos” e os professores cariocas figuram um quadro preocupante

Quando o cidadão, trabalhador, professor, pedreiro ou engenheiro, transforma-se no alvo primário da Polícia Militar, com seus arroubos de destempero e desespero, demonstra-se que alguma coisa está fora da ordem. Neste momento, o mundo conclama paz, entendimento e democracia. Mas em várias regiões do Brasil, e sobretudo no Rio de Janeiro, o equipamento do Estado para garantir a segurança lança mão de bombas de gás de pimenta, cassetetes, teasers e outras armas não-letais (ou não!) com o único objetivo de calar o grito da multidão. Uma maioria que ordeira e pacífica reivindica direitos legítimos. De fato, sinal de que as coisas estão saindo de seus eixos.

Somados, episódios como os movimentos de junho, os muitos “Amarildos” e os professores cariocas, figuram um quadro preocupante. A frase que orienta muitos dos atuais manifestantes – “um povo não deve temer seus governantes, são os governantes que devem temer seu povo” – notabilizada pela graphic novel V de Vingança e seu mascarado, inspirado no personagem histórico Guy Fawkes, nunca foi tão dissonante da realidade que ora vivemos.

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