Editorial – Despolitizar é risco à democracia

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Se há uma grande constatação nos movimentos deflagrados em todo o país é que a pauta original, a redução de tarifas dos transportes coletivos, foi meramente o estopim de um protesto muito maior. Um desabafo que é muito mais para mostrar a insatisfação geral de diferentes grupos e correntes de pensamento da população com diversos temas polêmicos e historicamente problemáticos do país.

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O combustível que colocou correntes tão diversas a caminharem juntas, organizadas sobretudo a partir das mídias sociais, parece ter sido a brutalidade policial com que os primeiros manifestantes foram tratados, colocando em risco o direito à livre manifestação reivindicado originalmente pelo Movimento Passe Livre.

Mas o que seguiu-se vai render longos debates e estudos sociológicos. O transe coletivo que continuou alimentando as ruas de multidões, de todas as classes, credos, etnias e ideologias expôs uma babel de ideias e opiniões que, muitas vezes, convergem apenas na sensação de insatisfação.

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Com foco pouco definido e apregoando uma espécie de despartidarização e despolitização da luta, a multidão passou a hostilizar lideranças, representantes partidários e outros agentes da sociedade civil organizada, como se o erro estivesse na política em si. Felizmente, de forma paradoxal e para expor o absurdo dessa conduta, nunca antes se viu tanta gente discutindo justamente a política que move o país.

Ao invés de ceder à tentação e se entregar ao lugar comum de reclamar da política, o momento é muito mais de se apropriar dela, conhecer seus mecanismos legítimos de debate, seus partidos e seus representantes. Qualquer coisa diferente disso significa andar para trás e colocar em risco décadas de luta em defesa da democracia e da própria liberdade de expressão e manifestação.

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