Editorial – O complexo de vira-lata

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“O brasileiro é um Narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Eis a verdade: não encontramos pretextos pessoais ou históricos para a autoestima”. A frase foi elaborada por Nelson Rodrigues para explicar a expressão que ele próprio cunhou: o chamado “complexo de vira-lata”. Trata-se do sentimento de inferioridade do brasileiro em comparação a tudo o que vem de fora. Um sentimento que tem sido bastante lembrado nas últimas semanas.

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Curiosamente, quando empregado por Nelson Rodrigues, o termo também se referia a uma Copa. A de 1950, quando em pleno Maracanã, a Seleção Brasileira seria derrotada pela Uruguaia. Mas o autor reconheceu já à época, que a baixa autoestima se estendia a quase todos os campos da atividade cotidiana. E a ideia não era nova. Muitas análises remontam à época do descobrimento. É um primo próximo da unanimidade rodriguiana consagrada no dito popular de que “santo de casa não faz milagres”.

Agora, novamente numa Copa do Mundo, ele resolveu dar as caras. Mas, dessa vez, chegou antes de qualquer resultado em campo. O complexo apareceu para uma parcela importante da população como materialização do descrédito em toda a organização da Copa. E veio totalmente apartado da reflexão. Como se todo evento dessa magnitude já realizado, em qualquer parte do mundo, não enfrentasse seus problemas, seus fantasmas, seus erros e, claro, seus acertos.

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A diferença é que, lá fora, conscientes da importância de valorizar seus acertos, os cidadãos engrossam a torcida pela vitória dentro e fora do campo. Numa realização dessa envergadura em seus próprios países, geralmente assumem sua responsabilidade no acompanhamento das ações. Fiscalizam e cobram dos seus representantes eleitos, claro, inclusive como forma de se municiarem com argumentos e informações para as próximas escolhas.

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