Escrúpulos jogados às favas

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Quem conhece como funciona uma redação de jornal não se surpreenderia com a situação. A surpresa é quanto ao procedimento: tradicionalmente, as ordens para manipular o noticiário, por mais abjeção e revolta que causem, costumam ser verbais. Daí o espanto diante da notícia de que a direção de jornalismo da Globo enviou mensagem escrita determinando o corte de qualquer referência ao ex-presidente Fernando Henrique Cardoso nas mais recentes denúncias da Operação Lava Jato, que investiga a corrupção na Petrobras.

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O e-mail com essa orientação foi inicialmente divulgado no blog de Luís Nassif (ver aqui), no domingo (8/2), e logo se espalhou pela internet:

“(…) a diretora da Central Globo de Jornalismo, Silvia Faria, enviou um e-mail a todos os chefes de núcleo com o seguinte conteúdo:

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‘Assunto: Tirar trecho que menciona FHC nos VTs sobre Lava a Jato

Atenção para a orientação

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Sergio e Mazza: revisem os VTs com atenção! Não vamos deixar ir ao ar nenhum com citação ao Fernando Henrique’.”

Segundo Nassif, “o recado se deveu ao fato de a reportagem ter procurado FHC para repercutir as declarações de Pedro Barusco [ex-diretor da Petrobras, um dos que fizeram acordo de delação premiada] – de que recebia propinas antes do governo Lula”.

As declarações constam de depoimento prestado em novembro do ano passado, mas apenas agora liberado. Barusco diz que começou a receber propina “em 97 ou 98”, mas esse trecho não apareceu imediatamente nas reportagens dos canais da Globo. O caso recebeu tratamento diferente no Jornal Nacional e nos jornais da GloboNews.

Recapitulando

As primeiras reportagens foram ao ar na tarde de quinta-feira (5/2). Na GloboNews, a primeira matéria (ver aqui) não faz referência ao período anterior aos governos petistas, mas à noite, no Jornal das Dez (aqui), essa menção é explícita e repetida no dia seguinte. Na tarde do dia 6/2, em matéria cujo link chama para o título “Ex-gerente da Petrobrás diz que começou a receber propina em 1997” (aqui), a repórter lembra que “na época o país era comandado pelo PSDB”, mas ressalva que, sobre esse período, “o ex-gerente da Petrobras não deixa claro se recebeu propina a pedido de alguém ou de algum partido político”.

Na longa reportagem, de quase seis minutos, em que começou a tratar do caso, em 5/2, o Jornal Nacional utiliza seus habituais recursos de infografia para detalhar como funcionava o esquema denunciado por Barusco, mas omite a referência ao período de FHC. Pelo contrário, destaca, no infográfico, o pagamento de propina “em 90 contratos, entre 2003 e 2013, nos governos Lula e Dilma”. Apenas no dia seguinte, em reportagem um pouco menos longa (quatro minutos e meio, ver aqui), o JN menciona que o denunciante diz ter começado a receber propina “em 97 ou 98, durante o governo Fernando Henrique Cardoso”, mas também ressalva que ele “não esclareceu se o dinheiro recebido naquela época era destinado ao PSDB, partido do então presidente da República, ou a alguma aliança que o apoiava”. No sábado (7/2), o jornal anuncia que Fernando Henrique comentou “por escrito” o depoimento de Barusco (ver aqui), eximindo o seu governo de responsabilidade na história.

Deixando rastros

As reportagens informaram que os envolvidos cuidavam de não deixar rastros. Tampouco o tipo de ordem que partiu da direção de jornalismo da Globo deveria deixá-los. Mas deixou.

Seria improvável pensar que, nesses tempos de internet, o e-mail não vazaria. Mesmo considerando a hesitação dos jornalistas em denunciar o que ocorreu, por medo de perder o emprego.

Assim, a divulgação do e-mail só complicou as coisas para a empresa, ao menos em relação ao público minimamente atento, quando o Jornal Nacional pediu desculpas, em sua edição de segunda-feira (9/2, ver aqui),por ter insinuado que um dos ex-diretores da Petrobras, Guilherme Estrella, estaria comprometido no esquema de propina, quando o próprio denunciante o isentava.

Outras coisas viraram motivo de galhofa: por exemplo, a vinheta da GloboNews sobre o pedido do PT de “investigações na Lava Jato no período que antecede o governo petista”. Como disse o jornalista Eduardo Souza Lima em seu mural no Facebook, “não é nada disso, pessoal, eles só quiseram abreviar para caber na chamada. Afinal, ‘período que antecede o governo petista’ é bem mais curto do que ‘governo FHC’.”

Outro erro – que provavelmente foi mesmo um singelo erro de digitação, como tantos os que ocorrem e não deveriam ocorrer, pelo menos não com tanta frequência – ganhou outra conotação durante a cobertura do acidente com o navio-plataforma da Petrobras, na quarta-feira (11/2), em Aracruz, Espírito Santo: ao recapitular outros acidentes, a GloboNews divulgou, também em vinheta, que a explosão e o afundamento da plataforma P-36, na Bacia de Campos, que deixou 11 mortos, tinha ocorrido em 2011 (governo Dilma, portanto), e não em 2001 (portanto, governo FHC).

Pela culatra

Ao anunciar, em 11/2, o pedido da liderança do PT na Câmara para a ampliação das investigações da CPI da Lava Jato para o período anterior a 2003, considerando o depoimento de Barusco, o Jornal Nacional conclui a nota dizendo que “o Ministério Público Federal informou que se pauta pela isenção em suas investigações e não faz distinção de datas, prazos ou gestores”.

A mesma isenção deveria pautar o jornalismo, como as próprias empresas fazem questão de reiterar em seus princípios editoriais.

Sabemos que nunca foi assim, mas quando há um documento escrito apontando na direção oposta a denúncia quanto à manipulação é mais contundente. Assim, o e-mail disparado pela diretora de jornalismo da Globo teve efeito contrário e só ajudou a piorar a imagem da empresa, pelo menos entre os que têm alguma capacidade de discernimento e não se contentam com a primeira informação que recebem.

Mas, de fato, não é a primeira vez. Em março de 2010, quando representantes das empresas de comunicação se reuniram para discutir a terceira versão do Plano Nacional de Direitos Humanos, a então presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ), Judith Brito, afirmou que os meios de comunicação “estão fazendo de fato a posição oposicionista deste país, já que a oposição está profundamente fragilizada”.

Tratava-se de uma defesa do que as empresas entendem por liberdade de imprensa, por oposição à proposta do governo – e de muitos movimentos sociais, há muitos anos – de “controle social da mídia”.

Assumir-se como porta-voz da oposição significava, evidentemente, abandonar a posição de fiel da balança que as empresas de comunicação se arrogam, pelo menos desde a redemocratização.

A recente orientação para excluir qualquer menção ao ex-presidente Fernando Henrique do noticiário sobre corrupção na Petrobras não deveria mesmo causar espanto. Mas não deixa de ser uma forma de mandar às favas todos os escrúpulos de consciência.

Sylvia Debossan Moretzsohn é jornalista, professora da Universidade Federal Fluminense, autora de Repórter no volante. O papel dos motoristas de jornal na produção da notícia (Editora Três Estrelas, 2013) e Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico (Editora Revan, 2007)

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