Jaime Sautchuk: Refugiados são bem-vindos

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Por Jaime Sautchuk - jornalista. Publicado originalmente no site vermelho.org.br.

Por Jaime Sautchuk - jornalista. Publicado originalmente no site vermelho.org.br.
Por Jaime Sautchuk – jornalista. Publicado originalmente no site vermelho.org.br.

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O Brasil tem sido citado em fóruns internacionais como um dos países que mais recebem refugiados procedentes principalmente do Oriente Médio, em especial da Síria e Iraque. Mais até que muitos países europeus que têm se queixado do êxodo atual. Contudo, este fluxo migratório tem um peso insignificante diante do crescimento da população nativa daqui, este sim um fato que já preocupa autoridades do setor. O Papa Francisco, o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, enfim muita gente de estatura global elogiou a postura do Brasil diante de refugiados. E Dilma Rousseff reafirmou na assembleia da entidade das nações que o país está de braços abertos pra receber vítimas de perseguição política ou da sina de guerras. “O Brasil é um país de refugiados”, disse ela, sob aplausos. Em verdade, essa história vem de longe. Não fosse a imigração europeia do Século 19, por exemplo, nem eu estaria aqui, escrevendo esta coluna, suponho. Lembrando que, embora incentivados pela monarquia brasileira, os egressos do Velho Continente também fugiam da fome, do acosso político e dos conflitos bélicos, como os andarilhos de agora. E é bom demais que o Brasil fique ainda mais multifacetado. Esse gesto de solidariedade é uma tradição da diplomacia brasileira – e reflete, claro, o amor tupiniquim. O Brasil é signatário de todos os documentos multilaterais que tratam do assunto e mantém, na esfera interna, o Comitê Nacional para Refugiados (Conare), um órgão que congrega vários ministérios, em nível de ministros. Ademais, também recebe com igual abraço imigrantes vindos por outras razões, como os haitianos do pós-terremoto, por exemplo. Hoje, o país abriga algumas dezenas de milhares de refugiados e, no momento, analisa cerca de 10 mil pedidos de asilo. Contudo, num passado recente o número de pedidos era muito menor e vinha em maior volume de países vizinhos, como a Colômbia. Dali, era gente dos dois lados no conflito entre os governos locais e as FARCs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), movimento guerrilheiro que ocupa um pedaço do país há mais de 50 anos. Por isso, aqui a maioria morava na Região Norte. Mas, o recente acordo de paz entre as partes, firmado em setembro, em Cuba, conteve a geração de refugiados. Agora, a maior demanda é de africanos e de árabes, em especial sírios, fugitivos da guerra civil no país. A preferência de moradia recai sobre o Sudeste e, de todo jeito, representam uma alteração não mais que residual no quadro demográfico brasileiro. Haitianos A última desgraça geológica no Haiti, que já tem bons anos, espalhou gente daquele país mundo afora. Muitos deles vêm pro Brasil, a partir de 2010, e aqui entram pela porteira do Acre, estado amazônico, que já foi boliviano e faz fronteira com a própria Bolívia e com o Peru. Os haitianos chegam por ali porque é mais fácil. Saem do Caribe até o Equador, passam pelo território peruano e entram no Brasil, no mais das vezes, pelas mãos dos famosos coiotes, os agenciadores de mão-de-obra ou traficantes de gente do nosso vizinho andino. Ou seja, mesmo que tenham saído do Haiti com alguma poupança nos bolsos, chegam aqui pelados, pois os tais coiotes confiscam tudo o que o cidadão tiver. A maioria gasta em torno de US$ 4 mil em duas semanas de viagem. E aí carecem da amizade e do carinho do povo brasileiro, para que se sintam em casa, tenham algum calor humano. O governo do Acre faz as vezes do Brasil e acolhe os que chegam. Dá a esses imigrantes alguma esperança de uma vida digna. Muitos logo se arranjam em alguma atividade, especialmente em Rondônia, onde havia muitas obras em curso, na construção civil. Agora, com a conclusão das obras das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, no rio Madeira, o quadro mudou de figura. De todo modo, os haitianos não são considerados refugiados, pois, em tese, não correm ameaça de morte em seus países. O conceito de “refugiado”, pelas normas internacionais, se refere aos ameaçados por razões políticas. Se a morte ronda no Haiti pela fome e doenças pós-terremoto, não cria esse direito. Pesquisa realizada pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República revela que cerca de 50% desses haitianos, quase todos homens jovens que viajaram sozinhos, não têm destino certo. Uma parte (16%) escolhe São Paulo e outra parcela, que passa dos 22% escolhe Curitiba, Florianópolis, Porto Alegre e outras cidades do Sul, onde se empregam no setor de serviços, na maioria.

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