Jovem de Cotia quer que sua traumática história sirva como alerta contra cultura do estupro

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Foto: Elza Fiúza/ABr

Após conseguir escapar com vida de um sequestro, seguido por abuso sexual, a jovem moradora de Cotia K.T. M., de 19 anos, afirmou querer que a sua história sirva como um alerta contra a cultura do estupro. “Se é necessário a gente fazer um alarde, mostrar, colocar uma foto ou vídeo, que seja feito porque as pessoas precisam acreditar”, disse.

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K. contou no “Domingo Espetacular”, da Record, exibido neste domingo (7), o pânico vivido durante as oito horas em que passou com o agressor, J. W. F. S (nome omitido em 01/07 por solicitação da defesa do acusado). “Só consegui acreditar que estava indo para casa quando sentei no banco [do carro] da polícia e pensei ‘meu Deus, estou viva’”, disse.

A jovem relatou que já tinha visto o veículo usado por J. W. para cometer o crime próximo à empresa algumas vezes. Mas o que ela não sabia era que o agressor a observava, havia planejado o crime e tinha a intenção de matá-la.

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J. W. escolheu a segunda-feira (1°) para colocar o plano em ação. K. foi atacada por volta de 8h20 da manhã, próximo ao portão da empresa onde trabalha, no Km 30 da Rodovia Raposo Tavares.

As imagens da câmera de monitoramento da empresa onde K. trabalha mostraram que ela tentou fugir, mas não conseguiu. “Esperei ele sair do carro e comecei a gritar o nome do meu supervisor. Mas em questão de segundos ele conseguiu me imobilizar e colocou a faca no meu pescoço”, contou.

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K. foi levada com o pescoço acorrentado junto ao banco traseiro do veículo para um condomínio que fica há três quilômetros de onde foi abordada.

Ela conta que em meio ao desespero, chegou a oferecer R$ 20 mil para que J. W. a deixasse ir. A proposta teria chamado a atenção do agressor, que concordou em ir até um caixa eletrônico com K. “‘Vou te levar para o caixa, mas antes vou fazer outra coisa com você’ e não consigo nem repetir o que ele falou para mim. Eu só fechei o olho e queria que aquilo acabasse logo porque eu não tinha o que fazer”.

Após abusar sexualmente de K., J. W. a deixou no veículo e voltou a trabalhar na obra. “Ele falou pra mim que estava trabalhando ali do lado e que se eu tentasse fugir, ele iria me matar ali mesmo”, disse a jovem. “Tentei poupar as minhas forças porque eu não sabia o que ele ia fazer comigo”, contou.

Com a repercussão do sequestro na mídia e das buscas pela garota, o criminoso teria desistido de matá-la para tentar fugir.

A busca incessante

Enquanto K. vivia os piores momentos de sua vida, a polícia e a família procuravam por ela nas redondezas. “A gente não parou um minuto porque a gente sabia que cada minuto era crucial e se não trabalhássemos, não íamos conseguir salvar ela”, disse a mãe de K. ao “Domingo Espetacular”.

Ao identificar a placa do veículo usado no crime, a polícia descobriu que ele estava no nome da esposa de J. W.. Assim que ela soube que o marido estava envolvido em um suposto sequestro, entrou em contato com ele. Ele limitou-se a dizer que estava trabalhando, mas não falou onde.

A polícia chegou então ao condomínio onde o agressor estava com a ajuda da irmã de J. W. No local, o agressor foi encontrado quando tentava fugir. Segundo a polícia, ele se rendeu alegando ser ‘trabalhador’, mas no mesmo momento, K. gritou.

K. foi encontrada dentro do veiculo, acorrentada e com várias lesões.

O agressor, que tinha antecedentes criminais pelo mesmo crime, vai responder agora por sequestro, estupro e cárcere privado. Ele deve ter a pena agravada por mais de quarenta anos, segundo a polícia.

“Até quando os homens vão fazer isso?”

Apesar do sofrimento, a sobrevivente de um dos casos que revoltou a população fez um alerta. “Se é necessário a gente fazer um alarde, se é necessário a gente mostrar, colocar uma foto ou vídeo, que seja feito porque as pessoas precisam acreditar”, desabafou.

A promotora de Justiça Renata Rivitti classificou a violência sexual como uma “epidemia global” e afirmou que o combate ao estupro começa na educação das crianças e passa pela importância em denunciar os casos. “O medo, a vergonha, os dedos de acusação podem fazer com que uma mulher se cale”, disse à reportagem.

Um dia após o crime, K. agradeceu a preocupação, o cuidado e as mensagens que recebeu de diversas pessoas. “Estou viva. Realmente achei que não ia conseguir sair dessa, mas eu quero agradecer a todos que se importaram, que mandaram mensagem”, disse nos stories do Instagram.

K. mostra os machucados nos lábios e no pescoço. “Ele tentou me enforcar, mas a minha força espiritual foi tão grande, que ainda não sei dizer como consegui sair disso. Eu estava o dia inteiro sem comer, sem beber água e consegui me livrar quando ele tentou me enforcar”.

“Só posso dizer que nasci de novo. Não sou e nem vou ser a primeira. Mas sou uma das poucas [mulheres] que conseguiu sair viva”, concluiu.

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