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Negra e da periferia, modelo osasquense supera o racismo e busca seu espaço no mundo da moda

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Gabriela Viudes se prepara para representar Osasco no Miss Brasil Real / Fotos: Arquivo Pessoal

Gabriela Viudes, de 25 anos, que nasceu na capital paulista e foi criada em uma comunidade no Helena Maria, é a vencedora do Miss Real Osasco 2021 e vai representar o município na edição nacional do concurso, em outubro. Apesar de o título representar uma das maiores conquistas de sua vida, a trajetória da modelo negra é marcada por uma série de “nãos”, portas fechadas, preconceito, entre outros desafios que quase a fizeram desistir dos próprios sonhos.

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A osasquense cresceu na periferia e, desde os nove anos, quando seus pais se separaram, viu sua mãe, Marisa Viudes, sustentar a casa e os dois filhos sozinha. “Passamos muita dificuldade e a minha mãe trabalhava muito para nos sustentar, mas ao ver todo o esforço dela, fui me fortalecendo e sempre falei ‘mãe, vou conquistar o meu espaço para poder honrar essa mulher que a senhora é’”, contou Gabriela, em entrevista ao Visão Oeste.

Em meio à dificuldade financeira e mesmo vivendo em um país em que 54% da população é negra, segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia), o racismo é outra realidade presente na vida da jovem, que é descendente de espanhol e africano. Gabriela, que sempre estudou em escolas da rede pública, disse que já chegou a fazer parte de uma turma na qual era a única negra e viveu diversas situações constrangedoras por causa disso. Os colegas costumavas a fazer piadas sobre o seu cabelo e a cor da sua pele e, como se não bastasse, ela lembra ainda das vezes em que foi ignorada até por professores. “Eu ficava com a autoestima lá embaixo e minha mãe era quem me puxava para cima”, lembrou.

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Gabriela teve o seu primeiro contato com o mundo da moda e da beleza aos 16 anos, quando recebeu um convite para fazer um book. “Minha mãe pagou caro no book, sabe? Ela não tinha condições”. A jovem conta que acabou saindo da agência por não conseguir ser contratada para trabalho algum. Outra situação conflitante, mas que também trouxe força para Gabriela foi quando decidiu que iria assumir o cabelo black power. “Sempre adorei os estilos de cabelo! Antes, eu usava o cabelo liso e decidi assumir minha raiz. Quero o meu cabelo do jeito que ele é e mostrar à mulher brasileira como ela é bonita”, disse a modelo.

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Foto: Arquivo Pessoal

Com o seu novo visual, Gabriela procurou outras agências e investiu tudo o que conseguia, mas a resposta era sempre a mesma: “não”. Desde que decidiu ingressar no ramo, a osasquense passou por 15 agências e foi recusada em todas. “Passei por várias agências que só usaram o sonho que eu tinha para conseguir dinheiro, aquele dinheiro que eu lutava tanto para conseguir. […] Me recusavam devido ao meu perfil não ser o ‘perfil de agência’, de ‘modelo fashion’. Eu estava muito desanimada por me inscrever em tantos concursos também e não ter retorno”, relembrou. “O que acaba fazendo com que as pessoas de classe social baixa desistam dos seus sonhos é não conseguir retorno mesmo depois de investir muito”, continuou.

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“É uma honra representar as mulheres negras e a minha cidade, Osasco”, diz a modelo, ao ver sua história ganhar novo rumo

Após tantas tentativas frustradas, muito dinheiro gasto na busca para ser reconhecida não somente pela sua beleza, mas pela história e as raízes que carrega, Gabriela conheceu o Miss Brasil Real, concurso de beleza organizado pela Agência Rosana Gusmão. A jovem osasquense conta que fez uma entrevista em outra agência no mesmo dia em que se inscreveu para o concurso e recebeu mais um feedback negativo.

“Quando recebi essa notícia, pensei em não tentar mais, já estava difícil porque eu estava investindo o meu suor e sempre tendo um retorno negativo. Até que a diretora do Miss Brasil Real me ligou para dizer que eu tinha sido selecionada para representar Osasco”, contou, emocionada.

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Foto: Arquivo Pessoal

Atualmente, Gabriela Viudes se prepara para representar o município osasquense em Campos dos Goycatazes, no Rio de Janeiro. A modelo conta que a miss vencedora do concurso, que será realizado em outubro, irá representar o Brasil na Itália (Miss Europ Continental). “Represento a minha cidade com muito orgulho e também sou a primeira miss negra de Osasco. Isso é uma honra, poder representar as mulheres negras daqui. Foi um conjunto de dificuldades que passei e agora estou vivendo um momento único e isso é muito importante porque eu quero dar voz e inspirar outras mulheres negras, de periferia, e dizer que elas conseguirão conquistar os sonhos!”.

“Foi muito difícil, mas sempre mantive a cabeça erguida e queria deixar essa mensagem para todas as mulheres. Passei por um conjunto de dificuldades e agora vivo um momento único e preciso dar voz e inspirar outras mulheres negras, de periferia, de que elas podem alcançar os seus sonhos. E agradeço a oportunidade de poder contar a minha história em um jornal da minha cidade, por saber que outras pessoas vão ler e poderão se inspirar. É uma forma de abençoar outras vidas através da minha história”, finaliza a modelo osasquense.

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