O pescador de garrafas do Tietê

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Com renda mensal que varia de R$ 800 a R$ 1.000, Lagartão sustenta à família / Foto: Eduardo Metroviche
Com renda mensal que varia entre R$ 800 a R$ 1.000, Lagartão sustenta à família / Foto: Eduardo Metroviche

Carol Nogueira

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Passando pela Estrada dos Romeiros, sentido Centro Histórico de Santana de Parnaíba, na altura dos bairros Parque Santana II e Germano, é possível enxergar na imensidão de um rio sujo e exalando um forte mau cheiro, um barquinho de madeira conduzido por um senhor negro, que arruma forças para remar e navegar pelo rio Tietê em busca de material reciclável.

Lagartão afirma que nunca ficou doente no contato com Tietê

Essa é a rotina do pernambucano Roberto da Silva, 53, conhecido como Lagartão, que há 13 anos, de segunda a domingo, recolhe garrafas pet e outros materiais recicláveis, que são revertidos em uma renda mensal que varia de R$ 800 a R$ 1.000 para sustentar a esposa, duas filhas e uma neta, que moram em Barueri. “Moro em um quartinho no Parque Santana e só vou em casa visitar e levar dinheiro, mas não demoro muito não. Tenho que trabalhar para pagar as contas e sustentar minha família”.

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O emprego de catador começou com o parceiro Orlando Garcia dos Santos, o Cabelo, que trabalha como pedreiro, mas também recolhe materiais no Tietê para complementar a renda da família. No início, Lagartão mergulhava nas águas escuras do rio para buscar os recicláveis. Depois, o companheiro de trabalho construiu três barcos de madeira.

A labuta começa logo cedo, por volta das 8h, e não tem hora para acabar. É na beira no Tietê que Lagartão almoça e, entre uma viagem e outra, toma um gole de café. Sempre feliz e cantarolando, ele separa os materiais em sacos com capacidade para 30 litros, que uma vez por semana são recolhidos por um caminhão, cujo serviço custa em média R$ 100, e vendidos para um ferro velho em Barueri.

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Sem utilizar qualquer tipo de proteção, Lagartão afirma nunca ter ficado doente devido ao contato com a água suja e não tem receio quando precisa molhar os pés no Tietê. “Algumas vezes a prefeitura veio aqui dizer para eu não fazer esse trabalho, mas eu gosto. Quando chega uma certa idade fica difícil arrumar emprego. Aqui não tem chefe para me encher o saco, trabalho o quanto quero e a hora que eu quiser. O melhor peixe do Tietê é a garrafa”, filosofa.

Os dois catadores têm um cadastro na Eletropaulo com permissão para navegar no rio, quando as comportas da barragem se abrem. Às segundas, quintas e domingos ficam na margem separando os materiais para vender. Largartão diz que as águas do Tietê trazem de tudo, desde garrafas pet, latinhas, plástico, geladeira e até dinheiro. Algumas vezes, em meio aos lixos e água preta, teve a impressão ver um corpo, mas deixou passar para evitar problemas.

Desde que chegou em São Paulo, há mais de 20 anos, a vida nunca foi fácil. Antes de trabalhar como catador, Lagartão trabalhou em empresas de terraplanagem. “Sou feliz com a vida que levo e não gosto de ver ninguém triste ou nervoso. Já basta nascer pobre. Se o rio fosse limpo eu dava outro jeito de trabalhar”.

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