Opinião: Bolsa de valores e a quantidade surpreendente de novos investidores

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bolsa de valores
Reprodução

Por Rodrigo Alcântara – economista e assessor na Atrio Investimentos

A era digital trouxe benefícios para todos os segmentos da economia e não é diferente para o mercado financeiro. Tudo começou com o sistema eletrônico de negociação, facilidade que simplificou a compra e venda de ativos via computadores, possibilitou a evolução da acessibilidade via smartphone, e que acabou gerando a escalabilidade necessária para que bancos e corretoras de valores expandissem os seus negócios.

Investimentos em conteúdo e informação ao cliente tornam-se cada vez mais atrativos, pois corretoras e bancos têm conseguido conquistar vários novos investidores, justamente, devido ao fácil acesso e a praticidade de se aplicar na bolsa de valores. Não somente no segmento de empresas atuantes no mercado financeiro, mas nas redes sociais e no YouTube, começam a aparecer figuras públicas e influenciadores, que informam e ensinam sobre finanças pessoais e investimentos. Isso só é possível devido a boa remuneração ou retorno, que esse tipo de exposição traz para os negócios. São milhões de visualizações à conteúdos gratuitos na internet, o que ajuda a reduzir cada vez mais, a assimetria de informações existente entre a população e os investimentos.

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Esse resultado é nítido nos dados que foram divulgados neste ano pela Bolsa de Valores brasileira (B3). No fechamento do mês de maio, a B3 registrou grandes volumes de movimentações, que correspondem ao total de 1,042 trilhão de reais, sendo 240 bilhões de reais (23,6%) provenientes de investidores individuais, 245 bilhões de reais (23,6%) movimentados por institucionais e 504 bilhões de reais (48,4%) aplicados por investidores estrangeiros. Por vários anos, a relevância do investidor do tipo pessoa física, foi muito menor nas movimentações. Em maio de 2019, as movimentações somaram 660,9 bilhões de reais, sendo 17,6% investidores pessoas físicas, 29,4% institucionais e 47,4% estrangeiros.

Quando realizamos uma comparação entre os últimos anos, é possível identificar que em 2019, a B3 registrou um movimento de 4,268 trilhões de reais e em 2018 foram 2,998 trilhões reais. Houve um aumento de 42,36% no volume das movimentações. Só em maio de 2020, tivemos 24,41% de toda a movimentação registrada no ano passado inteiro.

O que mais chama a atenção são os números que comprovam a relevância do acesso à informação para o mercado financeiro. O número de CPFs registrados na bolsa de valores ficou estagnado de 2011 a 2016 em 0,5 milhão aproximadamente. Em 2019, a quantidade de investidores atuantes chegou ao patamar surpreendente de 1,4 milhão. Na contagem de maio de 2020 somaram-se mais 2,4 milhões de CPFs na bolsa.

Até este ponto, o aumento do número de investidores pode ser justificado pela queda da taxa de juros Selic, a baixa remuneração dos ativos livres de riscos e ainda pelo aumento do número de investidores em busca de novas alternativas de aplicações. Mas não foi somente isso. O conhecimento sobre os descontos em ativos devido aos impactos da pandemia do novo coronavírus na bolsa de valores, fez com que as pessoas aportassem capital em renda variável.

Em março, com a queda de 29,9% do Ibovespa, a bolsa chegou ao número de 1,9 milhão de CPFs. Ao compararmos o período compreendido entre março e maio, houve um incremento de 26,31% de novos investidores, com o volume de 0,5 milhão de novos CPFs, ou seja, em dois meses o número de novos investidores registrados é praticamente a mesma quantidade identificada na bolsa em 2017.

A quantidade de CPFs é surpreendente, mas conseguimos quantificar também a melhora no conhecimento e na diversificação de ativos. Apesar do volume financeiro aplicado pelos investidores estar reduzindo devido à pequena quantidade de aporte financeiro apresentado pelos novos entrantes – o saldo mediano aplicado reduziu 58%, saindo de 19 mil reais em conta no ano de 2018 para 8 mil reais no mês de março de 2020 –, é possível perceber o aumento da quantidade de ativos na carteira. Hoje, cerca de 48% das pessoas físicas na bolsa de valores possui mais de 5 ativos na carteira. Segundo a B3, em 2016 essa mesma base representava 26%.

Em relação a outros ativos, conseguimos perceber também uma maior adesão dos investidores. A procura agora não é somente por ações, mas também por fundos imobiliários e Exchange-Traded Funds (ETFs). Em 2016, a B3 registrou que 78% dos investidores detinha somente ações, já em março de 2020, esse número caiu para 54%. Ou seja, a diversificação em outras classes de renda variável também aumentou.

A quantidade de investidores pessoas físicas entre 19 e 24 anos de idade saiu de 1% em 2016 e saltou para 10% em março deste ano. Entre 25 e 39 anos, a relevância partiu de 24% em 2016 para 49%. Assim, mais uma vez conseguimos perceber que a faixa etária das pessoas que, em média, são mais digitalizadas, hoje representa grande parte dos investidores presentes na bolsa. Em 2016, os aplicadores com mais de 60 anos, representavam 51% dos investidores pessoas físicas. Em março deste ano, a representatividade caiu para 23%.

A bolsa de valores está deixando de ser uma modalidade de investimento complexa, para se tornar uma alternativa viável e acessível por meio de poucos cliques. Essa é a grande contribuição da digitalização para o mercado financeiro e à população brasileira em relação as suas poupanças. Vejo que a redução da assimetria de informações – promovida pela disseminação gratuita de conteúdos no YouTube, redes sociais e blogs voltados a assuntos ligados a bolsa –  e o aumento da qualidade de trabalho dos assessores de investimentos foram determinantes para a alavancagem do número de novos investidores.

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