Opinião: Cenário Hadad

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bolsonaro
Foto: Clauber Cleber Caetano/PR

Por Antônio C. Roxo*

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Embora com a boca torta, dado os interesses ($$$) em jogo, o chamado mercado precifica tudo, montando cenários para o futuro.

Nas últimas eleições as previsões sobre o futuro do país, o “mercado” botando suas fichas no Posto Ipiranga, o cenário era de bonança, recuperação de crescimento maiúsculo, confiança incondicional nas promessas – muitas – de Guedes. No caso da vitória de Haddad as turbulências estariam escancaradas, o crescimento desprezível, investimento caindo pelas tabelas, enfim o país estaria condenado a patinar mais uma vez, sem folego e direção.

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A aposta “não tem tu, vai tu mesmo”, acabou vitoriosa com a dobradinha Bolsonaro/Guedes.

O boletim Focus do Banco Central pesquisa o mercado (particularmente os gestores financeiros) sobre estimativas das variáveis fundamentais: crescimento, inflação, câmbio, resultado das transações externas. Pesquisa semanal, que baliza sua política de metas da inflação que se sustenta na teoria das expectativas racionais. A grosso modo, o mercado responderia de forma esperada pela teoria aos estímulos dados pela política governamental desde que crível. A pesquisa cumpre o papel para o BC de sentir o “Mercado” de forma a calibrar sua política monetária (juros).

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Ora, as previsões dos economistas mainstream e assemelhados, particularmente nos momentos mais graves da vida nacional, tem muito a ver com desejos (interesses?), mais do que com a realidade concreta.

Lá atrás, os fundamentalistas do mercado, apregoavam (governo Temer) que a aprovação da Reforma Trabalhista e o Teto dos Gastos desencadearia – agora vai – a explosão do crescimento. Não deu…

Com a vitória da dupla Bolsonaro/ Posto Ipiranga, digo Guedes, as condições “objetivas” estariam dadas para a ansiada aceleração do crescimento. No início do mandato da dupla as previsões eram 2,5% de piso para 2019, condicionado à aprovação da Reforma da Previdência. Aprovada, o espetáculo do crescimento explodiria. Cadê? No frigir dos ovos será de 1%, se tanto. Note-se que em 2019 houve liberação do FGTS, queima de reservas internacionais, entrada da grana do leilão do pré-sal, primeira diminuição do compulsório, etc. E nada!!

Findo o ano, desmoralizados nossos “astrólogos”, as previsões, embora mais modestas que no ano anterior, eram todas otimistas, e em crescendo, mídia embarcada na toada. Nem bem começa o ano, os mais espertos começam a duvidar da própria esperteza e já preveem para baixo a estimativa de crescimento, o piso virando teto, com viés de baixa. Para mascarar a frustação criou-se novas condicionantes … mais reformas!

Admitem (envergonhados?), que pesam contra a incompetência inata de Bolsonaro como gestor, além das diversas encrencas em que está metido, cavalares em sua estupidez – para ser bondoso – e, suas ligações passadas (?) com milicianos e milícias. Recorre-se como justificativa à questão civilizatória, hipócrita, pois caso o crescimento viesse, seria jogada para as traças por boa parte da elite, mesmo o país sendo motivo de chacota no mundo inteiro.

É claro que o comportamento do governante, para o bem ou para o mal, e no caso, claramente para o mal, influencia a economia e as decisões dos agentes econômicos.

No entanto, o que é totalmente disfuncional para o espetáculo do crescimento, não é só o comportamento, é a própria política econômica, os 12, 6 milhões de desocupados em 2019 (6,8 milhões em 2014), os 38,4 milhões na informalidade (maior contingente desde 2016), os 11,6 milhões de trabalhadores sem carteira assinada (mais alto patamar desde o início da série histórica em 2012), os 29,28 milhões subutilizados (destaque da série). Afinal se não há quem compra, produzir para quem?

Acrescente-se a emasculação do BNDES (quem empresta a longo prazo para atividades industriais no Brasil?), se não há crédito para a cadeia produtiva como gerar oferta?

Adicionado, entre outros, ao estrago no Bolsa Família, no meio ambiente e, a pretexto vários, a rápida destruição da educação e de um ambiente de incentivo à inovação. E, pior, o persistente solapamento das instituições, isto é, da democracia. Eis a questão!

Apesar de o dólar nas alturas e crescimento pífio, tome diminuição acentuada no superávit da Balança Comercial, junto com a saída de capital que no começo do ano já atinge a quantia de US$ 29,28 bilhões. O Posto Ipiranga caminha célere para posto sem bandeira e sem poder. A perda de controle e de governança é resultado inconteste. O centro do problema é por aí, a política econômica atual é aposta certeira contra o futuro do país.

O fato de o Governo não entregar o que prometeu começa a caracterizar, para os agentes econômicos, a fotografia – piorada – da vitória de Haddad.

Enfim a incompetência entranhada aliada à própria política econômica radicalmente equivocada (estado mínimo em país de miseráveis, aqui oh!) formam o caldo de cultura para o marasmo econômico ao qual nos atolamos. Não entregaram o que prometeram, o que para a elite conservadora que o sustenta pode levar ao simples descarte, seja a que pretexto for: “hasta la vista, baby!”.

Por Antônio C. Roxo – doutor pela USP e professor visitante da Unifesp -Osasco

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