Opinião: Tristes Trópicos!

Opinião: Tristes Trópicos!

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Por Antônio Carlos Roxo – doutor pela USP, professor visitante da Unifesp-Osasco e analista do Seade

Ouvi na 98.9, Rádio Brasil Atual, excelente emissora, recomendo, entrevista de pesquisadora da Unicamp, cuja pesquisa constatou que enquanto o feminicídio de mulheres brancas nos últimos anos diminuiu, o de mulheres negras e indígenas aumentou. Acrescente-se a maior vulnerabilidade e menor mobilidade social para os afrodescendentes.

A escravidão e tudo que, para a viabilizar, envolve, seja do ponto de vista econômico que requer a sujeição física do escravo, seja do ponto de vista social/cultural que exige também a sujeição psicológica, impregnaram a história e a sociedade brasileira. Não à toa, o Brasil foi o último país relevante a abolir a escravidão explícita. A escravidão e o tráfico de escravos cumpriram papel central para o surgimento do capitalismo na Europa, a acumulação primitiva ou originária, demiurgo do capitalismo.

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Os senhores de escravos, ou melhor, a sociedade escravocrata, sádica que era, transformou os escravos em coisas, mercadorias “inanimadas”, forma de construir uma cultura que servisse de anteparo ou contrapeso à revolta latente e permanente dos escravizados. Mercadoria em estado natural, tudo era permitido, inclusive a subjugação sexual das mulheres escravizadas.

A condição de escravo era tão degradada que houve casos de venda dos próprios filhos, decorrência do uso das mulheres negras como escravas sexuais, pelos senhores proprietários de terras e dos escravos, a elite da época.

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A mortalidade e doenças físicas e psíquicas que a situação de extrema exploração ocasionava, é um estigma que levará séculos a ser superado, tanto na alma dos próprios escravos e seus descendentes como também no inconsciente coletivo do país. Este é o passado que nos condena, inexoravelmente. E que revisionismo “histórico” nenhum poderá apagar. Esta nação só se transformará em país digno de seu potencial quando purgar esta nodoa indelével de forma radical (indo à raiz). Assim, a política de cotas é um primeiro passo, embora não possa ser o único.

Entretanto, este espírito escravocrata que permeia o pensamento e a “ideologia” pátria nesses tempos tenebrosos em que vivemos, na argumentação contra as cotas, com a maior cara de pau, ainda exista toda uma tentativa de justificar o injustificável. É o caso de repetir Claude Lévi Strauss: Tristes Trópicos!

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