“Precisamos ganhar a classe média de novo”

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Lapas critica “desequilíbrio” da imprensa contra o PT / Foto: Felipe Nunes
Lapas critica “desequilíbrio” da imprensa contra o PT / Foto: Felipe Nunes

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Leandro Conceição

Em entrevista ao Visão Oeste, o prefeito de Osasco, Jorge Lapas (PT), diz que a reeleição de Dilma Roussef (PT) à presidência foi importante para a continuidade dos investimentos do governo federal na cidade. “Nossa preocupação era [com o tucano Aécio Neves] a gente ser tratado como é pelo governo do estado [governado por Geraldo Alckmin – PSDB], sem investimento nenhum”.
Lapas também analisa as derrotas petistas no estado, onde Dilma perdeu por 64,31% a 35,69% dos votos válidos para Aécio, e em cidades consideradas redutos do PT, como Osasco, São Bernardo do Campo e Guarulhos. Para ele, um dos fatores é a cobertura parcial da mídia contra o PT. Além disso, avalia, o partido precisa de políticas para “ganhar a classe média de novo”.
O prefeito osasquense também minimiza possíveis efeitos da derrota de Dilma em Osasco nas eleições municipais de 2016, quando ele deve tentar a reeleição. “Avaliação federal não tem nada a ver com a avaliação do município”.

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Qual sua avaliação sobre o segundo turno da eleição presidencial?
O mais importante é [Dilma Rousseff] ter ganho. Para nossa cidade, é muito importante a parceria com o governo federal, não só por ser [comandado pelo] mesmo partido, por pensarmos igual sobre o país, as prioridades que um governo precisa ter, pelo social, pelas pessoas que mais precisam. Mas também pelo lado da nossa cidade. Muitos projetos estão sendo desenvolvidos aqui, como é o caso da [duplicação] da [avenida] Visconde de Nova Granada, obra iniciando, a urbanização do Jardim Santa Rita, obra em andamento, 12 creches que a gente tem projetos de iniciar. Nossa preocupação era [com o tucano Aécio Neves] a gente ser tratado como é pelo governo do estado [com o tucano Geraldo Alckmin], sem investimento nenhum.

“Mídia trabalha muito contra o PT”

Muitos dos serviços do estado na cidade são mantidos porque a Prefeitura ajuda, na área de segurança, merenda para as crianças nas escolas do estado… A gente tinha a preocupação de que isso ocorresse também num governo do PSDB em nível nacional. Então, estamos mais tranquilos, mas vamos continuar trabalhando. Tem muito projeto em parceria com o governo federal para andar ainda, fora os que já estão em andamento. Tem a faculdade de medicina, a Universidade Federal (Unifesp), que tem um compromisso de iniciar no ano que vem [as obras do campus definitivo, em Quitaúna], Escola Técnica Federal, que a gente está articulando para trazer para cá. Tem muita coisa boa para vir. Claro que passamos muito sufoco, ficamos angustiados. Foi uma eleição muito apertada, mas é assim mesmo.

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Osasco sempre foi considerada um reduto petista. Mas nesta eleição Dilma perdeu aqui nos dois turnos (leia na página 3). Como vê essas derrotas na cidade?
Pesou muito a imprensa. A mídia trabalha muito, no geral, contra o PT. Muitas vezes fatos semelhantes, como há poucos dias atrás, quando assessor do [deputado estadual] Bruno Covas (PSDB) foi pego com dinheiro, com material de campanha, cheque de campanha… e não se dá destaque. No domingo, tinha uma matéria sobre o vereador [paulistano Eduardo] Tuma, do PSDB (acusado de envolvimento em um esquema de extorsão de comerciantes), e deixaram para dar depois da eleição. E se fosse vereador do PT você ia ver falar na TV: “o vereador do PT…”, como não é, falam “o vereador Tuma”, não “o vereador do PSDB”.
Há um desequilíbrio no que a imprensa tem colocado contra o PT e isso afetou o PT. Precisamos trabalhar muito isso. Afetou o PT em geral, mas em São Paulo, mais. Teve o caso da Veja… sem ter prova nenhuma, um ladrão (o doleiro Alberto Youssef) vai e fala (faz acusações envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a presidente Dilma Rousseff). Eu fico com medo por mim mesmo. Então, se algum ladrão falar que tem alguma coisa contra mim, a imprensa já vai divulgar? Precisa apurar primeiro. Não se pode acabar com a imagem de um partido, de uma pessoa, sem apurar antes. E teve coisas piores, como dizer que mataram o Yousseff. Cometeram muitos erros.

A derrota de Dilma em Osasco traz temor para as eleições municipais de 2016?
Acho que não. Primeiro que a avaliação federal não tem nada a ver com a avaliação do município. São Bernardo, município que teve bilhões em recursos do governo federal, tem um governo [municipal] bem avaliado, mas perdeu lá também (por 55,89% a 44,11%) como perdeu em Guarulhos (63,09% a 36,91%), em outros municípios.

“Preocupação era tratamento igual ao do governo do estado”

O que valeu nessa eleição foi mais o perfil do eleitorado. O eleitorado mais simples, das camadas mais baixas, votou maciçamente no PT porque reconhece que tem programas que atingem diretamente essa camada. Então, em cidades como Itapevi a gente teve mais votos (55,73% a 44,27%) do que em cidades que têm uma classe média maior, como Osasco. Mas nós estamos trabalhando e precisamos trabalhar a classe média, com políticas na área de esportes, de cultura, e de segurança também, que é dever do [governo do] estado e nossa cidade não está sendo contemplada pelo governo estadual. Precisamos trabalhar isso, ganhar a classe média de novo.

Como está o abastecimento de água nas unidades de saúde e escolas do município? Continuam usando caminhões-pipa? O governo do estado prestou os esclarecimentos cobrados pelo senhor?
Conversei com a presidente da Sabesp [Dilma Pena], ficamos de marcar uma reunião e estou no aguardo de acertar a agenda, para pelo menos termos um plano de emergência para hospitais, pronto-socorros, para sabermos antes quando vai faltar água, por quantos dias e onde. Ela continua insistindo que não falta água, o que é um absurdo. É um problema que nós já sabemos que tem e é melhor a gente tratar com seriedade isso. Não adianta faltar água no pronto socorro e eu demorar seis horas para ter um caminhão-pipa, porque o pronto socorro fica parado. Eu preciso saber antes. Os caminhões-pipa continuam atendendo e a Sabesp tem ajudado com isso, eles têm mandado sem custo. Mas o ideal é que eu soubesse antes, não depois que já acabou a água, sem correr o risco de ter de interromper o atendimento.

Dilma já anunciou que um dos principais pontos do novo governo será a reforma política. Ela defende um plebiscito. Congressistas e partidos aliados já resistem à ideia e falam em referendo. Qual a posição do senhor e quais devem ser os principais pontos de uma possível reforma política na sua opinião?
A reforma política não aconteceu até hoje porque o Congresso sempre foi contra. Mas a presidente pode convocar um plebiscito para decidir sobre esse tema e acho que ela tem força política para isso. Se depender só do Congresso, eles não querem que mude a regra, porque foram eleitos com essa regra atual e há um conservadorismo nesse sentido. Mas eu acredito que a gente vai conseguir fazer as mudanças, porque o povo quer mudança. O financiamento privado [de campanhas] é muito complicado para as eleições, porque desequilibra as forças econômicas e, com isso, a gente acaba perdendo gente boa, que poderia contribuir mais com o país.

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