Qual é a cor da vergonha?

0

Edgar Nóbrega – economista e diretor da Rumo Desenvolvimento

publicidade

As cores despertam a atenção desde que somos crianças, especialmente quando, nas escolas, os professores trabalham as suas misturas e tonalidades.
Acabei de voltar de uma viagem ao Sul da Bahia, quando atravessei, na cidade de Linhares, o Rio Doce. Passamos por cima deste rio e poderia ser apenas mais uma entre tantas pontes de tantos rios de um longo caminho, mas foi uma cena impactante.
Afinal de contas, estávamos diante de uma imagem que, aos poucos, o poder econômico vai conseguindo retirar das principais emissoras de TV, rádios e jornais.
E a certeza que passei a ter depois de mais de dois meses da tragédia iniciada no Distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, foi que a cor que avistei sobre a ponte em Linhares é a cor da vergonha, da falta de escrúpulos e da ganância.
Mas aquele alaranjado forte que teima em esconder e manchar a grandeza e a doçura deste Rio tão imponente é também a cor da indiferença.
É fato que aos poucos a cordialidade da nossa gente desvendada faz com que muitos se acostumem com as tragédias do cotidiano, sejam estas pequenas ou grandes, sejam sociais, culturais, econômicas ou ambientais.
No Brasil, a Samarco já afirmou que seu patrimônio não consegue arcar com as penalidades aplicadas e insiste em recorrer e protelar aquilo que já deveria ter sido decidido pela Justiça. E fica aqui mais uma pergunta: até quando as autoridades demorarão a tomar para si as responsabilidades em relação a esta e outras barbaridades?
Enquanto as coisas não se esclarecem, enquanto o rio continua com as cores da vergonha, sigo com as minhas lembranças em relação às possibilidades de que somente com protagonismo social de fato será possível construir a nação que há tempos batalhamos.

publicidade

Comentários