Em Carapicuíba e região, alunos e professores temem volta das aulas presenciais: “ano perdido”

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sala de aula Carapicuíba
Foto: divulgação

A possibilidade de voltar às salas de aula em meio à pandemia de covid-19, que já matou mais de 23 mil pessoas em todo o estado, tem preocupado pais, alunos e professores da rede estadual em Carapicuíba e em toda a região, que não enxergam garantias de um retorno 100% seguro.

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De acordo com o secretário estadual de Educação Rossieli Soares, a data para o retorno das aulas nas escolas estaduais será divulgada na sexta-feira (7). Inicialmente, Doria afirmou que o retorno estava previsto para o dia 8 de setembro, mas que dependia de uma série de fatores em relação à evolução da pandemia de covid-19.

“A gente entende muito bem que o presencial é muito importante para o relacionamento entre aluno e professor, para o aprendizado e tudo mais. Mas temos que viver a nossa realidade e não mostrar que nós estamos avançando porque, na verdade, o problema só será solucionado a partir do momento em que todas as pessoas forem imunizadas”, diz uma professora de uma escola estadual, que fica em Carapicuíba, ao Visão Oeste.

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A docente, que não quis se identificar, leciona há 22 anos na rede pública e afirma que as escolas da rede estadual não têm condições de receber os alunos e funcionários com segurança e teme pela sua vida. “Eu, como profissional, tenho muito medo até mesmo porque nós, professores, também temos família, temos pais com idade mais avançada. Se eu me contamino, como vou fazer para cuidar da minha mãe, entende?”.

O plano de volta às aulas anunciado inicialmente por Doria prevê a retomada gradual em três etapas. Na primeira, as salas terão ocupação máxima de 35%, com revezamento dos estudantes durante a semana. Ou seja, em uma unidade escolar com mil estudantes, somente 350 poderão ter aulas presenciais por dia, enquanto que os demais continuarão a cumprir atividades remotas.

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“No início, teremos somente alguns alunos nas salas de aulas. Então, imagina como será para nós professores, que recebemos por período de aula lecionada, além de ministrar aulas presenciais, continuaremos trabalhando com eles de forma online. Essa possibilidade, dentro da nossa realidade hoje, é inviável”, defende a professora, que revelou ter notado uma participação maior dos alunos nas aulas online, o que ela também usa como argumento para justificar sua posição contrária ao retorno das atividades presenciais nas escolas.

“Infelizmente, até mesmo o máximo de cuidado já nos oferece risco porque estamos falando de vidas, são professores, alunos, funcionários e a própria comunidade. Eles [o governo] deveriam tirar de cogitação essa possibilidade de retorno agora”, completa a docente.

A professora Bárbara Garcia, também leciona há anos na rede estadual e não concorda com o retorno das aulas presenciais. “Existem muitos funcionários das escolas que são do grupo de risco da covid-19, já outros que não são desse grupo têm pais nessa situação, então é complicado. Vamos gastar um tempo absurdo para organizar os alunos, fazer com que eles cumpram o distanciamento e demais regras. O protocolo não permite que a gente se aproxime dos alunos. Então, é voltar às aulas presenciais para quê? Para que os pais possam voltar a trabalhar e tenham um lugar para deixar as crianças? Porque aprender, nesse momento, ninguém vai aprender”, defende.

“Um ano perdido”

A comerciante Ivonete Gonçalves, que tem dois filhos matriculados no 4° ano do ensino fundamental em outra escola do estado, também em Carapicuíba, disse que não vai permitir que seus filhos retornem à escola este ano. “Por mais que digam que a escola vai ter suporte para o retorno seguro das aulas, não há garantias para isso. Meus filhos têm 10 anos, são crianças e a gente sabe como é. Quem vai garantir que não vão compartilhar lápis, borracha e até mesmo a máscara de proteção?”.

Já Emily Silva, de 14 anos, viu o seu 9° ano do ensino fundamental “se perder” em meio à pandemia. Ela estuda em outra escola da rede estadual, também em Carapicuíba, e contou ao Visão Oeste que a experiência com as aulas online não têm sido uma das melhores. “Esse ano é um ano perdido e deveria ser cancelado. Pode ter certeza que a maioria dos alunos não aprendeu nada”, desabafou a estudante.

“Tenho colegas com crise de ansiedade, cansaço psicológico e que choram para tentar dar o melhor. Mesmo assim continuam recebendo as atividades dos professores que dizem para criar cronogramas e para não deixarem as lições acumularem, mas não está fácil para ninguém. A pandemia também trouxe a falta de empatia”, lamentou.

A realidade também não tem sido muito boa para Milena Ferreira, de 15 anos. A jovem está matriculada na 1ª série do ensino médio, mas desistiu dos estudos devido às dificuldades que vieram com a pandemia. “Eu não tenho computador em casa e dependia do celular do meu pai para acompanhar as aulas online. No começo, me preocupei mais, mas agora entendo que não tenho muito o que fazer, ficou difícil para mim”, contou. A estudante de outra escola da rede estadual de Carapicuíba também considera esse ano letivo como “perdido” e espera conseguir recuperar o tempo perdido.

APEOESP diz “não” ao retorno das aulas presenciais

Na quarta-feira (29), professores de diversas regiões do estado participaram de uma carreata organizada pelo Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo (APEOESP) contra a volta às aulas presenciais. Com mais de 250 carros, um grupo de docentes se concentrou em frente ao Estádio do Morumbi, com destino ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo do estado, mas foi impedido por bloqueios da Polícia Militar.

Além do protesto, o Sindicato, presidido pela Professora Bebel, chegou a protocolar junto à Organização Mundial da Saúde (OMS), um ofício para relatar o possível retorno das aulas presenciais, anunciado por Doria. “Não podemos aceitar pacificamente que o governo de São Paulo imponha o retorno às aulas presenciais, que conforme especialistas, colocará em risco a vida de alunos, professores, enfim, de toda comunidade escolar”, diz Bebel.

Já o governador ressaltou que o plano de retomada das aulas presenciais deve acontecer de forma gradual e “cuidadosa”. “Todas as decisões serão compartilhadas com o Comitê de Saúde para garantir prevenção e segurança a alunos, professores e funcionários das redes pública e privada de ensino. Será uma volta gradual e responsável que tem como princípio fundamental garantir a saúde e a vida dos alunos e profissionais de Educação”, afirmou Doria.

Escolas estaduais podem ter 4° ano do ensino médio em 2021

Como uma forma de auxiliar os alunos do 3° ano do ensino médio que se sentirem prejudicados com a suspensão das aulas presenciais durante a pandemia de covid-19, o governo do estado estuda a possibilidade de criar o 4° ano do ensino médio em 2021. De acordo com o secretário estadual de Educação, o 4° ano será opcional e a formação das turmas deve depender da quantidade de alunos interessados em continuar os estudos por mais um ano.

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