Estilista osasquense cria marca de roupa que exalta cultura afro-brasileira e periferia

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Editorial Aprofunk, do estilista osasquense Anderson Paz / Foto: Raphael Queiroz

Você sabia que em Osasco existe um estilista da periferia que criou a sua própria marca de roupas afro-brasileira? O Visão Oeste conheceu o trabalho e a história de Anderson Paz, de 36 anos, e preparou uma matéria especial para falar sobre suas criações, inspirações e muito mais.

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Anderson nasceu na capital paulista, mas foi criado no Jardim Veloso, na periferia de Osasco. Formado em fonoaudiologia, o osasquense, que é casado com Amanda Paz e pai da pequena Lorena, de seis anos, trabalhou por algum tempo na área da saúde, mas decidiu dar outro rumo à sua vida profissional. “Fiz o curso técnico de fotografia na Etec de Carapicuíba e ao sair de lá, passei a trabalhar mais com fotografia de moda, comecei a atuar em agências de modelo, preparar editorais e casting de modelos”, explica, em entrevista ao Visão Oeste.

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Anderson, Lorena e Amanda Paz/ Foto: Reprodução/Facebook

Em 2017, Anderson e sua amiga Marcela Barbosa abraçaram o desafio de criar uma marca própria de roupas e juntos fundaram a SantaPaz Brand, uma empresa pensada em produzir peças com valores mais acessíveis, mas que tivesse um retorno justo à toda a equipe envolvida, e nasceu sua primeira coleção. “Começamos com produções bem pequenas porque a gente é de periferia e não tinha um recurso de R$ 10 mil para começar uma coleção, por exemplo. Então a gente começou com pouquíssimo. A primeira coleção que a gente fez, cada um deu R$ 50 e com esse dinheiro compramos os tecidos”.

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A SantaPaz foi fundada com o objetivo de criar peças que pudessem ser compradas por amigos e pessoas mais próximas, todas da periferia, que não têm condições de pagar R$ 200 em uma camiseta ou R$ 500 em um vestido. Com isso, o desafio se tornou ainda maior porque, segundo ele, essa iniciativa sairia em contra partida com a realidade encontrada no mundo da moda.

“A nossa preocupação era que as nossas peças atingissem esse público, mas que não fossem tão baratas a ponto de que a cadeia de produção, desde modelos, fotógrafo, estilista, modelista e costureira recebessem pouco por esse trabalho porque esse é um grande problema nessa área: empresas enormes produzem coisas imensas, ganham muito dinheiro e pagam pouco para quem está na linha de produção. E o nosso objetivo era que isso não acontecesse na nossa marca porque não era cabível que a gente fizesse uma peça e pagasse dois reais para uma costureira ou cinco reais para uma modelista, que leva horas para fazer uma modelagem inteira, por exemplo”, continua.

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Para que o objetivo da marca fosse alcançado, a esposa de Anderson foi alguém que o ajudou muito. Amanda Paz chegou a ser a única modelo da SantaPaz, pois a empresa não tinha condições de pagar modelos para posarem nos primeiros editoriais. Com o passar do tempo, Marcela se desligou da marca e Anderson prosseguiu com a empresa, onde encontrou sua maior paixão em meio às produções, escolha de tecidos, desenhos, corte e costura, além da produção das fotos e editoriais.

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Fotos: reprodução

“Empreender é uma caminhada mais difícil para a gente que é negro”

Atualmente, a SantaPaz não tem loja física e vende suas peças exclusivamente pelo site ou por meio do Instagram. Anderson chegou a alugar um box na região central de São Paulo, mas ao ser impedido de abrir as portas devido à pandemia de covid-19, não conseguiu manter o espaço e teve de fechar.

Para Anderson, a experiência de empreender tem sido suada e é um dos maiores desafios enfrentados por ele. “Se você começa uma marca, precisa registrá-la para que não usem o nome dela em outros lugares e isso leva muito dinheiro, muitas pessoas não conseguem. Eu consegui graças a minha esposa, mas foi uma caminhada mais difícil para a gente que é negro”, diz.

O osasquense revela ainda que a forma como o empreendedorismo é mostrado na internet não é tão simples de se colocar em prática para quem vive na periferia. Até se instalar no mercado, fazer com que as pessoas conheçam a marca e entendam o propósito dela pode levar muito tempo e o retorno também não vem em poucos anos de trabalho.

“As pessoas pintam o empreendedorismo como a coisa mais fácil do mundo, a gente vê isso na internet. Fui assistir em diversos cursos e as pessoas falam que começaram e em um ano já estão superfaturando, mas começaram investindo com sei lá, R$ 30 mil. Os pequenos empreendedores não têm esse dinheiro para investir, não têm condições e por isso muitas empresas fecham. É muito difícil até você se instalar nesse mercado e eu ainda estou nesse processo de me instalar e de ser notado”, defende.

Segundo o estilista, enaltecer o trabalho de pessoas negras tem se tornado “moda”, mas consumir os produtos ou serviços dessas pessoas ainda é algo limitado. “Já fui diversas vezes na avenida Paulista expor araras para vender as minhas peças. O público adora ver, mas acha um absurdo quando um negro cobra R$ 80 em uma bata. Então, essas pessoas quase não consomem de pessoas negras e empreender, trabalhar com moda afro sendo negro é muito mais complicado”.

Produzir em meio à pandemia: editorial Afropunk, sua nova coleção

Como Anderson destacou, a pandemia trouxe diversos impactos à sua marca. As coisas começaram a ficar mais difíceis para o pequeno empreendedor, que se viu obrigado a fechar a única loja física que tinha. Mas os prejuízos não foram apenas financeiros, pois o osasquense estava engajado nos preparativos de sua nova coleção quando o mundo foi acometido pela covid-19 e foi forçado a recuar.

Durante seu tempo isolado, Anderson se aproximou muito mais de sua família. O WhatsApp foi a ferramenta responsável por aproximá-lo e com isso, o osasquense passou a conversar mais com seus avós, primos e tios, e encontrou a inspiração que não podia buscar em outros lugares para voltar a produzir suas peças. Assim nasceu o seu novo editorial e sua nova coleção chamada “Afropunk”.

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Coleção Afropunk / Foto: Raphael Queiroz

“Criar no meio de uma pandemia tem sido bem complicado porque é um tempo em que estamos ‘presos’, não tem como sair e não tem como se inspirar em outros lugares. Ainda estamos no momento de reclusão e a Afropunk foi inspirada nesse tom de regresso”, explica.

Com a inspiração à parte, colocar o projeto em prática foi outro mega desafio para o estilista osasquense. A marca que nasceu com todo um viés social teve de se adaptar para manter seus valores. Os tecidos passaram a ser encomendados com antecedência e, por duas vezes, Anderson foi de carro ao Brás para buscá-los, com horário agendado e seguindo todas as medidas de proteção e segurança.

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Coleção Afropunk / Foto: Raphael Queiroz

A coleção “Afropunk” foi produzida com uma logística completamente diferente de tudo o que Anderson já havia feito no ramo da moda. A iniciativa só foi possível com o auxílio de um grande amigo, o fotógrafo Raphael Queiroz. Juntos, eles pensaram em toda uma estrutura e colocaram as ideias em prática.

“Estudamos a localização, possibilidades, cenários e fizemos a fotografias em cima da casa da minha avó, que é na periferia de Osasco. Isso teve a cara da SantaPaz”, destaca o osasquense. “Da laje da minha avó, a vista é maravilhosa e retrata a nossa periferia, onde as pessoas são estilosas e andam bem arrumadas. É logico que temos problemas sociais e políticos, que precisam de atenção, mas enquanto não se resolvem, a gente continua e é por isso que pretendo dar esse retorno e olhar para a sociedade onde vivo, da forma que vejo”, continua.

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Foto: Raphael Queiroz

Com as peças de sua nova coleção prontas e seu estúdio improvisado na laje, Anderson começou a receber os modelos para fotografar, todos parceiros da marca. “A cada fim de semana a gente recebia dois modelos, que chegavam aqui em casa, tomavam banho e mesmo quem veio de longe, a gente fez todo um procedimento para evitar a contaminação das pessoas envolvidas, mas foi um processo muito longo de produção”.

Inspirações e parcerias que fizeram a diferença

A SantaPaz tornou-se então uma marca com uma história singular, periférica e difícil, mas que contou com a ajuda de diversas pessoas. O apoio da família de Anderson foi, para ele, uma das questões mais importantes. Além de sua esposa, seus pais, amigos e parentes sempre buscaram incentivá-lo.

Anderson diz o quanto é agradecido pela oportunidade de trabalhar com modelos como Gabriela Fabiola, Monike Carvalho, Bruno Otavio, Tauany Almeida e Rafaella Alves. Ele cita também a alegria de poder contar com Raphael Queiroz, profissional responsável pela parte fotográfica e toda a direção de arte da marca. “O Raphael é maravilhoso, está sempre junto comigo”.

Ambos se conheceram quando estudavam na Etec e a amizade rendeu uma parceria de trabalho criativa e singular. “Venho acompanhando de perto as iniciativas do Anderson e vejo muito potencial, principalmente nos diversos aspectos socioculturais que ele traz na identidade da SantaPaz”, afirma o fotógrafo.

Em relação às referências para a criação de suas peças, todas atreladas à cultura afro-brasileira, Anderson destaca os estilistas baianos Isaac Silva e Carol Barreto. Para conhecer a nova coleção da SantaPaz, acesse o site ou o Instagram da marca.

Confira a íntegra da entrevista com o osasquense fundador da SantaPaz Brand:

Quando começou a se envolver com moda?

Comecei a minha carreira há pouco tempo. Eu era do ramo da saúde, sou formado em fonoaudiologia, trabalhei um tempo na área e acabei percebendo que não era o que eu queria. E aí eu fui procurar uma outra oportunidade de carreira em algo que eu pudesse fazer e entrei no ramo da fotografia. Fiz o curso técnico de fotografia na Etec de Carapicuíba e saindo de lá ,trabalhei mais com fotografia de moda, entrei nessa parte de preparar editoral, de casting de modelo e agência de modelo. Há três anos, minha amiga Marcela Barbosa e eu montamos uma parceria para montar uma marca. Não continuamos na parceria, mas fundamos a marca juntos.

Fui estudar, fui fazer curso de corta e costura, curso de modelagem… Toda a parte de desenvolvimento de coleção, de produção, de escolha de editoral e de tema é tudo autodidata, então fui atrás de ler livros, assistir vídeo aula, comprar dezenas de livros de moda, de fotografia de moda, que eu já estava no ramo, e fui atrás dessa coisa de produção. Fui atrás de assistir os desfiles de Fashion Week, de conhecer os estilistas e aí comecei a me voltar para os estilistas brasileiras e tenho muitas inspirações, como Isaac Silva e Carol Barreto.

Qual a sua profissão atualmente? Tem alguma formação acadêmica ou planeja cursar?

Atualmente, sou estilista e proprietário da SantaPaz Brande. Na verdade, acabo fazendo toda a parte da produção de costura, corte e compra de tecido porque estou no começo, sou pequeno ainda e não tenho a condição de pagar uma modelista para fazer uma modelagem, por exemplo. Quando preciso, mando para alguma costureira para fazer algumas peças.

Pretendo fazer uma especialização e fazer um curso de moda sim, mas a parte autodidata que tenho aprendido tem me auxiliado demais. O mundo da moda é um mundo muito racista e um muito complicado porque tem diversos problemas. Infelizmente, todas as escolas de moda que a gente vê aqui no Brasil seguem muito o padrão europeu. Então toda a história de moda que é ensinada nas universidades é uma historia de moda europeia, você vai aprender sobre Coco Chanel, sobre Louis Vuitton e diversos estilistas europeus e americanos, mas você não tem o ensinamento de outros tipos de moda. De modas que vieram antes da moda europeia, por exemplo. Coisas como a história da moda no Egito é passado muito por cima, muito pincelado. Na verdade, os outros tipos de modas não são ensinados nessas escolas. Então pretendo fazer especializações, mas tudo o que eu tenho aprendido com amigos estilistas e com o meu próprio contato com o mundo da moda tem me agregado bastante.

Quando fundou a sua própria marca SantaPaz Brand? O que você quer passar para as pessoas por meio dela?

Fundei a SantaPaz em 2017, com a Marcela Barbosa. Começamos com produções bem pequenas porque a gente é de periferia e não tem um recurso de R$ 10 mil para começar uma coleção. Então a gente começou com muito pouco. Muito pouco mesmo. A primeira coleção que a gente fez, a gente juntou R$ 50 de cada um para comprar os tecidos e a Marcela desenhou os primeiros croquis porque ela tinha mais habilidade. Foi uma coleção bem básica, só camisetas, coisas mais estilizadas, uma coisa diferente do que víamos nas lojas porque a gente é uma empresa muito pequena e não temos condições de concorrer com grandes lojas do fast fashion, que são lojas como C&A e Renner, que são lojas de grandes produções.

Quando a gente fundou a SantaPaz, a gente tinha um objetivo que era criar peças que fossem compradas pelos nossos amigos. Não seriam peças com preços absurdos porque os nossos amigos também são de periferia e também não têm dinheiro para pagar R$ 200 numa camiseta ou R$ 500 num vestido. Teriam que ser peças no valor mais acessível, mas que também não fosse um problema na produção. A nossa preocupação era que as nossas peças atingissem nossos amigos e pessoas próximas que não tinham tanto dinheiro, mas que não fossem tão baratas a ponto de que todo mundo que participou da cadeia de produção, desde modelo, fotografo, estilista, modelista e costureira recebessem pouco por esse trabalho porque esse é um grande problema que a gente tem no mundo da moda: são empresas enormes produzindo coisas imensas, ganhando muito dinheiro e pagando muito pouco para quem está na linha de produção. E o nosso objetivo era que isso não acontecesse na nossa marca.

Então nosso objetivo é passar uma marca que tenha uma responsabilidade social e que tenha uma acessibilidade para todas as pessoas. Durante esses três anos, fomos construindo essa identidade da SantaPaz. A maioria da população de periferia é uma população negra, a minha herança é negra, então comecei a desenvolver coisas que tivesse a ver com essa ancestralidade, que tinham a ver com as pessoas que estão próximas a mim. Essa responsabilidade social surge muito mais porque eu vejo como essas pessoas vivem na periferia, vejo que essas costureiras de bairro recebem pouco para isso, então vou caminhando sempre no sentido de devolver para essa população essa responsabilidade que vem já da minha ancestralidade.

Falando um pouco de moda afro, que é o que eu produzo, me enquadro em uma produção de moda afro-brasileira porque resgato as minhas origens, mas sou brasileiro, então exploro esse viés e é um legado que quero deixar para a minha filha.

Como sua marca está estruturada? Você tem equipe para a confecção própria, trabalho manual e/ou terceirizado? Tem alguma loja?

Não temos loja física atualmente. Tínhamos um box em São Paulo, mas por conta da pandemia, não tive condições de manter o espaço e tive que fechar. E só fazemos venda pelo site ou pelo Instagram.

Todos os editoriais que a gente produziu, mesmo depois da saída da Marcela, e que por um acaso a marca esteve apertada, a minha esposa topou modelar. Se você olha as publicações anteriores da SantaPaz, minha esposa foi modelo em todas as fotos porque eu não tinha condições de pagar. Na minha visão nada é mais justo do que poder pagar para esses profissionais. Como a marca ainda não tem essa condição, fui atrás de curso de maquiagem também e todas as maquiagens sou eu quem faço.

A parte de fotografia, quem me ajuda é o Raphael Queiroz que é um grande amigo. Ele quem me ajuda na parte de fotografia e de edição, numa parceria grande e maravilhosa desde a época da etec. Então caminhamos juntos desde então.

Quais são os maiores desafios que você tem enfrentado?

Empreender. As pessoas pintam o empreendedorismo como a coisa mais fácil do mundo, a gente vê isso na internet. Fui assistir em diversos cursos e as pessoas falam que começou a marca em um ano e está super faturando, mas começaram investindo com sei lá, R$ 30 mil. Os pequenos empreendedores não têm esse dinheiro para investir, não têm condições e por isso muitas empresas fecham. É muito difícil até você se instalar nesse mercado e eu ainda estou nesse processo de me instalar no mercado, de ser visto, de as pessoas conhecerem a minha marca.

Se você começa uma marca, você precisa registrá-la para que ninguém usar aquele nome e isso leva muito dinheiro, muitas não conseguem. Eu consegui graças a minha esposa. É uma caminhada mais difícil para a gente que é negro. É moda falar de pessoas negras, mas o consumo de serviços e de produtos de pessoas negras é muito mais limitado. Elas compram maquiagem de pessoas negras para falar que estão consumindo e se você pergunta de qual marca é esse produtos, é da Fenty Beauty, que é a marca da Rihanna, poxa, da Rihanna, que é super famosa.

Já fui diversas vezes na avenida Paulista expor araras para vender as minhas peças. As pessoas adoram ver as peças, mas acham um absurdo quando uma pessoa negra cobra R$ 80 em uma bata, mas não acham um absurdo pagar R$ 150 em um óculos simples. Então, elas quase não consomem de pessoas negras. Empreender, trabalhar com moda afo e ser negro é mais complicado ainda.

Fale sobre o Editorial Afropunk. O que é esse editorial? O que te inspirou?

Esse editorial vem de uma linha de raciocínio do resgate de identidade, de resgate de herança. Tiveram dois editoriais anteriores a esse, que foi o Atunbí, que significa retorno. Nela, voltei às minhas raízes africanas, de povos que foram escravizados aqui no Brasil. Não na questão dos tecidos, mas nas temáticas. E a coleção que veio em seguida foi a coleção Griô, que representa a ancestralidade que ficou aqui no Brasil, por meio dos meus avós, que são os eternos griôs da nossa família, os responsáveis por manter e difundir as tradições da família. Essa segunda coleção teve esse propósito, criada no sentido de manter as tradições das nossa cultura.

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Coleção Griô / Foto: reprodução/Facebook

Já a “Afropunk” é mais moderna, mas que ainda carrega essa herança afrodescendente porque o movimento Afropunk é isso: um movimento criado em 1970 justamente porque o movimento Punk, tão revolucionário e tão rebelde, na época era um movimento racista, que não tinha espaço para os negros, não tinhas bandas punks negras, não tinha bandas com integrantes negros. Eles não eram rejeitados, mas não se viam naquele lugar e foi aí que surgiu o movimento Afropunk. Só então, os shows começaram a ter mais pessoas negras e o movimento cresceu a medida em que os negros começaram a trazer a suas raízes. E esse editorial trouxe isso, é atual, futurista, com peças mais produzidas, mas sempre com essa essência afrodescendente, tanto no uso dos tecidos, de Moçambique e da Angola, como nos detalhes.

O símbolo que aparece pintado nos modelos significa que você tem que voltar ao passado para conseguir um futuro melhor e que o nosso futuro só pode ser planejado se a gente tiver um pé no passado. Dessa forma, esse editorial é um pé na ancestralidade e é a primeira vez que criei uma coleção seguindo essa linha.

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Foto: Raphael Queiroz

O mais interessante é que esse editorial surgiu em meio à pandemia, que é o período em que as pessoas estão abaladas emocional, física e financeiramente, então acredito que é mais difícil de criar. Como tem sido esse processo para você?

Criar no meio de uma pandemia foi bem complicado porque é um tempo onde estamos “presos”, não tem como sair, não tem como se inspirar em outros lugares. Estamos no momento de reclusão e a Afropunk pegou esse tom de regresso às origens. Nesse período, estive muito mais próximo da minha família, a distância me deixou muito mais próximo deles. Então, o WhatsApp fez esse papel, estou sempre falando com meus primos, avós, tios.

Consegui ir duas vezes no Brás, sempre com a encomenda de tecidos, e a SantaPaz procurou agir de acordo com as normas de segurança. Eu não ia trazer o vírus para a minha casa, mas precisava encomendar tecido e foi assim que eu fiz por duas vezes. Eu mesmo fui retirar os tecidos diretamente no Brás.

A pandemia complicou muito, mas fiz acordos com pessoas maravilhosas que aceitaram posar para fotos. Minha esposa sempre do meu lado, sempre me apoiando desde quando decidi criar a marca e o suporte financeiro que ela também me dá conta muito. Se não fosse a Amanda, a SantaPaz não existiria.

Tenho muitas pessoas que me ajudam. Toda a minha família também sempre me apoiou, minha mãe, meu pai, minha irmã, o fotógrafo Raphael Queiroz, que é maravilhoso também está sempre junto comigo. A Gabriela é uma modelo que está há um tempinho já na marca, é muito importante para nós, sempre com a gente… Monique Carvalho, Bruno Otávio, Tauany Almeida, Rafaella Alves… O Bruno me ajudou muito. A Tauany foi uma modelo que apareceu em cima da hora e ela coube certinho no modelo que eu havia produzido nesse último editorial.

Foi todo um processo, cada fim de semana a gente recebia dois modelos, que chegavam aqui em casa, tomavam banho e mesmo quem veio de longe, a gente fez todo um procedimento para evitar a contaminação das pessoas envolvidas, mas foi um processo muito longo de produção. Eu estava começando a desenhar quando a pandemia começou, então uma das primeiras coisas que pensei foi como vou sair de casa para fotografar, sem poder alugar um lugar para fotografar? E aí o Raphael veio aqui em casa, estudamos a localização e fizemos a fotografias em cima da casa da minha avó, que é na periferia. Isso teve a cara da SantaPaz.

Os outros editoriais foram em estúdio, montado aqui em casa ou em um mini estúdio e esse último foi feito em cima da laje da minha vó, que tem uma vista maravilhosa. As pessoas são estilosas, as pessoas andam bem arrumadas. É logico que temos os problemas sociais e políticos, que precisam de atenção, mas enquanto não se resolve, a gente continua e é por isso que eu prezo muito a responsabilidade de dar esse retorno para a sociedade onde vivo, do que eu vejo.

Por: Jenifer Oliveira

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