Ataque racista a motoboy “está calcado na formação escravocrata do Brasil”, avalia o sociólogo Marcos Agostinho

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motoboy agredido
Fotos / reprodução / divulgação

Viralizou nas redes sociais nesta sexta-feira (7), um vídeo que mostra um homem branco, de classe média, humilhando e com atitudes racistas contra um motoboy negro em um condomínio em Valinhos, no interior paulista. Para o sociólogo Marcos Agostinho, do Instituto MAS Pesquisa, de Carapicuíba, o comportamento do agressor reflete “o processo de formação escravocrata do Brasil”.

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“A formação do capitalismo está alicerçada na escravidão. E hoje nós vemos que a chamada ‘uberização’, a precarização do mercado de trabalho recai ainda mais forte sobre a população jovem e negra, que não tem acesso à escolaridade e emprego formal. E o tratamento que esse ‘pseudo senhor de escravo’ teve é o mesmo que teve aquele cidadão de Alphaville que disse que em Alphaville a situação é outra, a abordagem da polícia tem que ser outra porque não é na periferia”, avalia Marcos Agostinho. O sociólogo se refere ao caso do empresário Ivan Storel, que humilhou policiais militares que foram à mansão dele apurar uma denúncia de violência doméstica, em um episódio que foi destaque em todo o país.

O empresário de Alphaville gritou ao PM que estava à frente da ocorrência, no dia 31 de maio: “Você é um b…. É um m… de um PM que ganha mil reais por mês, eu ganho 300 mil reais por mês. Quero que você se f…, seu lixo do c…”, disse. Em seguida, após supostamente falar no telefone, ele continuou: “Você não me conhece. Você pode ser macho na periferia, mas aqui você é um b…. Aqui é Alphaville, mano”. Ivan Storel também chamou uma policial militar de “p…”.

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Para o sociólogo do Instituto MAS Pesquisa, de Carapicuíba, “todo esse comportamento que nós vimos está calcado, enraizado, no processo de formação escravocrata do Brasil. Não é a toa que os movimentos populares, os movimentos políticos, têm em sua mais expressiva faceta, hoje em dia, a luta antirracista”.

“Ele cuspiu em mim, jogou a nota no chão e disse que eu era lixo”, afirma motoboy agredido

O ataque ao motoboy em Valinhos, na região de Campinas, aconteceu no dia 31 de julho, mas só veio a tona nesta sexta. O motoboy é Mateus Pires e o agressor é o contabilista Mateus Abreu Almeida Prado Couto, que foi detido pela Guarda Civil Municipal de Valinhos nesta sexta.

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Vizinhos afirmam que ele costuma agir agressivamente contra funcionários como porteiros e seguranças. Após a repercussão do caso, o agressor foi banido do aplicativo de delivery iFood.

O motoboy agredido diz que em parte das agressões não filmadas, o contabilista cuspiu nele. “O que ele faz é para se mostrar superior. Teve um momento em que ele cuspiu em mim, jogou a nota no chão e disse que eu era lixo”, disse, de acordo com a jornalista Andreia Sadi, da Globo. “Na frente da polícia, ele continuou com as agressões, me chamou de favelado”.

Durante as agressões verbais e gestos racistas, o agressor afirma: “Você trabalha de motoboy, você deve ser analfabeto, moleque. Quanto você tira por mês? Dois mil, três mil ‘real’? Você não tem nem onde morar (…) Você tem inveja disso aqui, moleque. Você tem inveja dessa família aqui (com um gesto racista apontando para a pele)”.

Esquizofrenia

Em um processo arquivado por falsa comunicação de roubo de um carro Honda Fit feita por ele, o pai afirmou que Mateus Abreu Almeida Prado Couto sofre de esquizofrenia, distúrbio psíquico que afeta a capacidade da pessoa de agir dentro da realidade, e teria surtos, segundo reportagem da revista Fórum.

“Apenas cinco dias depois da comunicação do crime, o pai do averiguado foi à Autoridade Policial e informou que o veículo estava na funilaria, a pedido e com a concordância de Mateus, sendo certo que este é esquizofrênico e, mesmo medicado, tem surtos que o fazem perceber as coisas de modo diverso. Em um destes surtos, entendeu que seu veículo tinha sido furtado”, diz manifestação do promotor Denis Henrique Silva em agosto de 2019, pedindo o arquivamento do caso.

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