Cafu abre o coração sobre morte do filho, em Barueri: “Às vezes nos sentimos impotentes”

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Danilo e o pai, Cafu

Capitão da seleção brasileira pentacampeã do mundo, em 2002, o ex-jogador de futebol Cafu celebrou aniversário de 50 anos no domingo (7) e abriu o coração sobre a perda do filho, Danilo, que morreu aos 30 anos, em 2019, após sofrer um infarto durante uma partida de futebol na casa da família, em Alphaville, Barueri.

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Em carta emocionante ao jornal “O Globo”, o capitão do penta desabafou sobre a dor da perda: “No dia 4 de setembro de 2019, Deus levou meu filho, Danilo Feliciano de Morais. Ele tinha apenas 30 anos. Alguns acontecimentos neste mundo são inexplicáveis. Não há rima nem razão. Perdi meu filho em meus braços. Eu tentei salvá-lo e ajudá-lo, mas ele partiu”.

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Cafu e o filho, Danilo

“Este era e é um sentimento de vazio, é uma sensação horrível. Às vezes nos sentimos impotentes, outras vezes nos sentimos tão fortes em nossos corpos e mentes, mas em um dado momento como esse, sua força física é o mesmo que nada, não ajuda. Por não conseguir salvar seu próprio filho, você se sente completamente fraco”, afirmou o ex-jogador.

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Leia a carta de Cafu na íntegra:

“Hoje estou completando 50 anos. É um aniversário marcante, mas será uma comemoração completamente diferente das demais. Em virtude da pandemia que está ocorrendo, estarei longe de muitas pessoas que são próximas a mim, e após completar um ano de um pesadelo que jamais imaginei passar, sinto que hoje é um bom momento para compartilhar e lidar com as emoções de milhões de perdas de todo o mundo, estou convencido do que estamos sentindo agora.

Todos nós experienciamos determinados dias em nossas vidas que jamais esqueceremos. O dia do nosso casamento, o nascimento dos nossos filhos e, para alguns sortudos, vencer a Copa do Mundo pelo nosso país. Há lembranças maravilhosas que levamos conosco eternamente, mas também há aquelas que jamais esqueceremos por outros motivos: dias que não conseguimos explicar e momentos de tragédia inexplicáveis que não são possíveis de prever, evitar e nem de impedir.

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No dia 4 de setembro de 2019, Deus levou meu filho, Danilo Feliciano de Morais. Ele tinha apenas 30 anos. Alguns acontecimentos neste mundo são inexplicáveis. Não há rima nem razão. Perdi meu filho em meus braços. Eu tentei salvá-lo e ajudá-lo, mas ele partiu. Este era e é um sentimento de vazio, é uma sensação horrível. Às vezes nos sentimos impotentes, outras vezes nos sentimos tão fortes em nossos corpos e mentes, mas em um dado momento como esse, sua força física é o mesmo que nada, não ajuda. Por não conseguir salvar seu próprio filho, você se sente completamente fraco.

Até hoje, não expus esse trágico incidente e, embora eu não queira detalhar os acontecimentos daquele dia ou dos dias imediatos, semanas e meses após sua morte, me sinto preparado para falar sobre determinadas coisas. Sinto-me da mesma maneira que muitas outras milhões de pessoas em todo o mundo se sentem, e que a cada dia no meu amado Brasil passam por sentimentos semelhantes de perda repentina. Quero contar e compartilhar. Quero usar esta carta para mostrar como a minha família e eu nos fortalecemos em tempos muito difíceis. Quero compartilhar nossas paixões, que incluem o esporte, e que têm nos ajudado nesta batalha.

Antes de prosseguir e embora esta seja a primeira vez que falo diretamente sobre a morte do meu filho, devo agradecer às milhares de pessoas que me enviaram seus pensamentos e orações. As palavras não podem expressar o quanto isso significou para mim e para minha família naquele momento e, do fundo do meu coração, agradeço a todos e a cada um de vocês que nos ajudaram nesta superação.

Da mesma forma que estou mencionando a minha família, tenho certeza que com essa pandemia que está acontecendo em cada canto do mundo, as pessoas em quarentena estão passando o maior tempo possível com seus entes queridos. E aqueles que estão distantes de seus entes queridos devem estar pensando e sentindo falta das famílias como jamais sentiram. Isso me lembra a força e o apoio que recebi da minha família após a morte do Danilo. Minha família é grande, e eu sou um dos seis irmãos. Não tive o apoio deles apenas naquele momento, mas também nesta crise atual. A família é a base de tudo. Renovamos nossas forças todos os dias juntos, para que possamos superar essa dor e encarar o futuro juntos.

A dor de perda permanece, no entanto, devemos sempre recordar de momentos positivos. Quando penso no Danilo, lembro do que ele mais gostava, que era fazer brincadeiras com as pessoas. Logo, quando essa dor vem, sempre lembro desses momentos bons e acabo sorrindo. É assim que lidamos com a sua partida, de uma maneira mais positiva.

E mais uma vez, como ainda há o isolamento aqui no Brasil e em muitas outras partes do mundo, estou passando ainda mais tempo com aqueles que estão perto de mim. Estou treinando todos os dias e estou treinando-os todos os dias, o que se tornou uma atividade familiar diária e bem divertida. As pessoas me verão como um famoso positivo, feliz e que está sempre sorrindo. Vejo como uma avaliação necessária da minha pessoa, mesmo estando longe da mídia.

Dessa forma, sempre procuro ver os aspectos positivos de tudo, mesmo enfrentando esta pandemia assustadora, podemos observar o tempo maior que ganhamos com as nossas famílias. Para mim, particularmente, certamente é uma bênção, pois costumo viajar tanto que muitas vezes não estou presente e perto dos meus familiares. Hoje, por meio desse fato negativo há uma situação positiva. Claro, sinto falta de estar em contato com o público em geral. Sou uma pessoa popular e não há nada que me alegra mais do que conhecer pessoas e conversar com elas sobre o futebol.

Também realizei muitos trabalhos nos últimos meses junto ao Comitê Organizador da Copa do Mundo de 2022, onde sou embaixador global. Através da nossa cooperação e do programa “Geração Incrível”, tive a oportunidade de conhecer centenas de jovens fãs de futebol de todo o mundo, e antes desse isolamento, trabalhei nas sessões de treinamento com eles.

Ao lado de meus colegas embaixadores, Xavi, Samuel Eto’o e Tim Cahill, vemos a alegria no rosto dessas crianças quando chegamos e brincamos com elas. Sinto muito falta disso. Sei que o programa realizou diversas sessões virtuais para que todas as crianças isoladas em casa pudessem acompanhar. Isso é admirável e é uma grande inovação durante esse período. Tenho certeza de que todos pensam o mesmo ao ver pela primeira vez a alegria nos rostos das crianças quando elas jogam futebol. Isso é insubstituível. É o que mais me alegra e é o que mais sinto falta.

Como já disse a mim mesmo em todos os dias de lutas do ano passado, essa dor e negatividade não durarão eternamente. Embora eu tenha certeza de que nunca esqueceremos esse momento, isso aliviará. E quando tudo isso acabar e retornarmos à vida normal, certamente apreciaremos as pequenas coisas que consideramos muito mais importantes.

Neste momento, estamos enfrentando tempos sombrios, mas como diz o ditado: a noite é sempre mais escura antes do amanhecer.

Peço a todos que se protejam, fiquem em casa, fortifiquem-se, fiquem juntos. Cuidem uns dos outros e lembrem-se que um dia, em breve, isso tudo acabará”.

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