Onde foi parar a civilidade?

Onde foi parar a civilidade?

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A sociedade viu estarrecida a notícia do linchamento até a morte da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, no Guarujá (SP). Era pobre, religiosa, e tinha duas filhas pequenas que serão privadas do carinho da mãe porque uma turba ensandecida assumiu o papel de polícia, juiz e executor a partir de um boato.
Não é apenas coincidência que a violenta ação dos moradores tenha se originado num boato circulado nas redes sociais. A nova mídia amplifica o alcance das mais diversas informações, verídicas ou não.Com a etiqueta “saiu na internet”, tolices e abominações ganham relevância e passam a martelar a cabeça do brasileiro médio que, não raro, foi exposto a uma educação sucateada e que ao longo de anos não forneceu o instrumental necessário para o pensamento crítico e a interpretação de texto adequada.

Pior ainda, muitas vezes tais interpretações à margem da lei chegam às redes pelas mãos de jornalistas ou expoentes da mídia que só fazem reverberar a intolerância, baseada em achismos, conceitos morais discutíveis e desconhecimento científico ou estatístico. Fabiane é a prova cabal de que não se pode dar ao cidadão comum, no calor dos fatos, o poder de decidir – com o fígado – sobre a vida e a morte de qualquer pessoa. Foi por isso que ao longo dos séculos a sociedade aprimorou o conceito de justiça, processo e julgamento. Trata-se de uma tentativa de minimizar o risco de injustiças. Como esta e tantas outras pequenas e grandes injustiças que estamos assistindo diariamente nas redes sociais.

Sem isso, voltamos à barbárie. Por isso que é tão preocupante quando alguém comemora o fato de amarrarem um menor, pelado, a um poste. Ainda que seja um delinquente. Voz de prisão do cidadão e chamar as autoridades são recursos legítimos. Qualquer coisa diferente disso é jogar a civilidade na latrina.

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